O ASTRONAUTA FLUTUA PORQUE ESTÁ CAINDO

Dia 101 da #quarentena

na hora do almoço, de repente, me pareceu que haviam acionado um botão, um cronômetro pro fim de uma etapa. comecei a receber e responder mensagens pelo celular: “

“Você tá bem?”
“Eu te amo”
“obrigada por tudo, MUITO”
“A gente tá aqui, sempre”
“❤️”

como se a gente estivesse dizendo até logo. mas sabendo que, entre o agora e o logo – inevitavelmente – haveria um rasgo. como se despedir no aeroporto antes de entrar num buraco negro, sabendo que os meus, todos vocês, também têm uma passagem pra lá mas que talvez não a utilizem agora, imediatamente, amanhã ou depois.

a clareza de sentimento: quero tanto te ver de novo. a tranquilidade em não saber: ainda que eu não te veja de novo, eu te amo… realmente: pode ser que não usem essa passagem tão cedo. mas, quando usarem, não esqueçam de esquecer sua identidade.

eu tenho esse relógio aí da foto há uns 11 anos. vivia parando mas eu preferia ele porque era forte e sobreviveu a vários trancos. inclusive mergulhos em tinas cheias de gelo e latas de cerveja nas festas (“aglomerações”), dos quais reemergia no meu pulso, embaçado e tossindo as horas. mas sempre voltava a funcionar na base do peteleco: eu dava umas batidinhas na parte de trás e pronto, como novo. não responde mais aos petelecos.

“stop all the clocks, cut off the phone…”

o astronauta flutua porque está caindo.

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NÃO SE IMAGINA QUE ELA DURMA

As coisas que costuma sonhar – tidas, dadas como perdidas –, as que não conhece e, presumem alguns, não iria a elas senão dormindo. Tais incluem:

Cidades, países, continentes, povos. Inexistentes nos pontos minúsculos do já ultrapassado Google Earth. Que olha buscando, em vão, ondivaga.

Fotografa tudo quanto sonha, e pinta por cima com boa tinta, comprada na loja Doutor das Cores, sito à rua 36 de Ouvembro.

Ilustra lonjuras jamais percorridas, nem por ela ou outro. Quanto mais distantes, mais reais.

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Desenha indivíduos com quem, diriam alguns, jamais travara ou travará contato. Como o menino que teria deixado viver em sua casa, animal de estimação.

Sonhos todos ricos em afetos e carimbos de passaporte, mais até que a própria vida.

Às vezes sonha.

Deev encontrou Tanita na cozinha, curvada sobre os exercícios de caligrafia que lhe cobravam no colégio.

Dos ombros retesados até o mindinho destro, a postura inteira da garota era um caso perdido. E ainda segurava o lápis feito uma assassina: os dedos da mão direita fechados em forma de garra, enforcando o Faber Castel; o punho guiando a ponta grafite sobre o papel em movimentos brutos, vacilantes.

As palavras escapuliam às linhas; isso quando não atravessavam a folha num rasgo. “Um primitivo com a vara queimada desenhava maior delicadeza na caverna”, a professora repetia – Tanita nunca achou graça. Mas os outros riam, para que não rissem deles por serem sisudos: é assim a escola.

Deev sentou no banco comprido da mesa de comer junto à Tanita, virada de frente para ela. Entre as pernas abertas de Deev, a menina de unhas lascadas seguiu concentrada e muda, ignorando-a, garranchando o bloco pautado.

O volume dos cabelos, as roupas largas e em camadas de Tanita – jeans folgados, moleton por baixo do casaco acolchoado que parecia um colete salva-vidas -, serviam-lhe como um artifício de peixe pequeno, que se espicha pra parecer bicho forte e livrar-se de predadores.

Deev não gostou do seu silêncio e implicou:

– Essa garrancheira aí é falta de porrada.

Deev lhe ameaçava punição. Deev fazia Tanita querer esmagá-la entre os braços, emaranhar-lhe os cabelos entre seus dedos machucados, engasgá-la com um doce já mastigado e cuspido, de sua boca para a da outra.

Tanita sonhava reorganizar essa hierarquia da amizade. Mas era Deev quem dominava os movimentos entre as duas, jamais o contrário. Por isso foi ela quem beijou-lhe as pontas dos dedos rasgados. E toda a tensão, ameaça, frustração, e a preocupação com a caligrafia, foram apagadas pela saliva que Deev verteu.

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small studio apartment

wakes up bare-assed.

the smallest piece of a thread from an old t-shirt

on her eyelashes, weightless,

it escapes her, a strand of cloth lost to first morning impressions.

she can see the kitchen from the bed, then —

‘I make noise’

(first morning joy)

the one with the accent goes on:

‘I make eggs. Want eggs?’

she’s wearing her t-shirt

inside out

‘I’m sorry’

 

O AMARROTADO E O PASSADO

Não importa do quê ou como nos arrependemos, mas o arrependimento, apenas.

Depois do arrependimento, não tem volta –  ninguém nunca mais é novo de novo. Alguns conseguem recuperar o antigo rosto iluminado.

Mas, para isso, é preciso deixar-se esquecer, enlouquecer, verter, ter, ao mesmo tempo, o abandono e o equilíbrio preciso da dança que remoça. Descobrir-se dançarino.

 

 

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NUNCA + NO MUNDO ACORDADO VOCÊ

Você e eu em um ônibus numa rua do centro, num raiar de dia que, dou como certo, vinha após noitada de festa. Das janelas do coletivo ainda vazio, olhávamos a calçada de um prédio antigo do governo. Seus olhos se acenderam: ali, de pé, estavam as figuras semi-humanas, sem expressão, que você adorava.

Faces como dentes cariados, que tinham braços e pernas; seres cobertos da ausência de todas as cores, em quem tivessem deixado de pintar olhos, lábios, mesmo um traço por nariz.

Bonecos playmobil bem articulados e em tamanho de gente. Eles giravam numa coreografia torta e apontavam uns aos outros a lança negra que cada qual trazia como parte de seu corpo-uniforme.

Eu sabia que se tratava de atração famosa na cidade onírica, equivalente aos sentinelas do Palácio de Buckingham do mundo acordado.

Você estava feliz por conseguir vê-los. Passar por eles e acenar. Cada qual, da cabeça aos pés, realmente feito um dente morto. Que coisa.

O ônibus ia lento, você sem pressa de chegar. Como quando eu era para você um encanto. Quando eu sabia que alguma coisa estava certa porque essa coisa te fazia sorrir.

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De repente algo estava errado: eu estava sonhando – o fim de uma coisa e o começo de outra, que eu não sabia identificar. Não vejo o futuro, mas isto eu sei: quando sonho assim com alguém, é porque nunca mais, no mundo acordado, verei quem sonho.
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TUBARÃO

Dia 85 da #quarentena | quase 90 dias de isolamento 100%. Tempo para pensar e organizar, sim. Mais do que isso, tempo para me assumir solar. Como nessa foto, como no meu peito. Para escrever. Para mergulhar nisso sem medo de tubarões.

Do que me lembro sobre o Tubarão?
Lembro que começamos a chama-lo Tubarão depois que ele me disse que era um tubarão.
Eu e o meu terapeuta o chamávamos assim porque ele se autodenominou assim.
Vamos lá, o que eu sei sobre ele, do que me lembro?

Olhos diminutos diante de mim, na mesa onde garrafas vazias de cerveja erguiam um muro ao nosso redor e o resto do mundo.

“Eu sou um tubarão.”
“O que eu mais gosto em mim: eu sei fazer dinheiro.”
“Não sei, eu acho que essa garota tem inveja de você.”
“Esse cara é meio folgado, abre teu olho.”
O Tubarão nadava em cerveja e opinava sobre a minha vida e a vida de pessoas que conhecíamos mutuamente. Quanto mais próximas elas fossem de mim, mais acusava-as em suas opiniões.
“Desculpa mas eu acho ele um babaca, interesseiro e eu fico puto de ver você passar por isso. Porque você mostra pra ele tudo que você escreve, ele diz que não leu e pá, próximo livro ou peça eu – EU TÔ CANSADO de reconhecer coisa tua ali no texto do cara!”
Ao outro, ele dizia:
“Ela imagina muita coisa. Fantasia demais.”
“Bizarro. Será que ela vai no lançamento?”
“Se ela leu, deve tá puta. Mas quer saber? Foda-se. O que vale é a tua imaginação, teu trabalho, coisa como faz tempo não se vê, de primeira linha, o escritor que você é – isso é que vale… Mulher viaja muito mas isso não quer dizer que é capaz de transformar em arte, né?”
“Ela pirou, acho que quer CASAR comigo.”
A mim, sobre as amigas que o viam com desconfiança:
“Desculpa mas eu vou falar: essa garota quer ser você, tu ainda não sacou isso? Isso é doença, comprar blusa, comprar brinco igual? E daí que é de outra cor?! Abre teu olho, essa guria é doida e ela ainda vai usar essa intimidade que tu dá pra ela pra fazer os outros acreditarem em tudo que é merda que ela fala de você por aí. Ou você acha que você conversa com ela de peito aberto, conta a tua vida toda e ela não sai espalhando merda sobre você? E aquela outra, a doida lá, me deu mole a noite inteira. Tu não viu não?”
Esse era o Tubarão. Era com essas presas que ele me rasgava, era assim que ele me comia, e às vezes ele me comia com o sexo também. Como é o sexo do Tubarão? Com muitas garrafas de cerveja vazias erguidas como um muro entre nós, sem olhar no olho, na cara, de quatro ,de costas, e depois “Eu vou sair”, até o dia que saiu e desapareceu, como se jamais imagina que uma pessoa daquela intimidade e antiguidade na nossa vida desapareça, independente de sexo ruim ou péssimo ou mesmo bom.
Meu trabalho é escrever. Eu nunca parei de escrever. Mas eu me escondi por medo. Isso não vai acontecer mais.
Esse texto não foi fácil de fazer e pode não ser fácil de ler para alguns. Mas não me interessa quem preferir enfiar a cabeça na terra.
Me interessa escrever e publicar, imune a suas presas e à cegueira eletiva, aos ouvidos moucos dos outros.
‪A história é mais longa e mais densa que o post. O trecho que eu postei aqui foi escrito há pouco mais de um ano. Para eu chegar a esse trecho, o resumo vago que ele é, eu levei mais de cinco anos engasgada.

Espero que eu consiga escrever tudo e também retomar meus projetos com menos lentidão‬. E nunca mais com a sensação de menos-valia e medo que me prendia.

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um conto

Dia 88 da #quarentena
1.
Desta vez ele morreu. Eu vou me lembrar deste dia para sempre. Quando já não houver o armário com a tinta branca descascada e eu for crescida demais para a cama com a guarda de trançado em palha, quando me perguntarem se eu fiquei muito triste, eu vou lembrar do enterro que eu imagino agora. Será que as pessoas vão vestir preto?
Eu não quis olhar dentro do caixão. Fiquei um pouco triste porque não gosto que ninguém fique tão machucado, nem mesmo ele.
Mas depois isso passou. Tudo de ruim acabou ali e eu cheguei em casa com os meus tios e as mulheres deles e todos passamos lá o resto do dia. Como quando era Natal e eu ainda os considerava família e eles vinham aqui com travessas de salada de batata e maionese – que sempre sobrava.
Quando eu me lembrar do que agora apenas imagino, fervorosamente, aí já será LÁ, um outro lugar possível para eu viver. Lá, eu serei uma pessoa. A casa, o armário e a cama deste quarto vão ser o passado.
Imagino que joguei fora as sandálias, pois carregavam terra do cemitério nas solas.
2.
Ele pegou a estrada para Maricá na terça-feira e hoje é domingo. Conto os dias nos dedos. Contando a terça-feira, foram cinco dias? Ele tinha dito que voltava na quinta. Ou a terça não conta e então faz só quatro dias? Quatro ou cinco, não importa, ele não veio quando disse que viria e é nesse fato que invisto a minha imaginação.
Choveu muito a semana toda, as estradas são escorregadias.
Já morreu tanta gente boa.
O pai da Letícia, da quinta série A, morreu no ano passado e ela chora até hoje quando pensa nele. Eu choro com ela porque eu sempre tenho choro para botar para fora. Em casa, se não for escondida, não posso chorar. Então eu choro com a Letícia. Ela pensa que eu choro porque o pai dela morreu mas choro porque o meu está vivo.
Ou estava. Imagino.102291824_10157936446374024_7484316474211827712_n
3.
No jornal ontem o Cid Moreira mostrou uma batida de carro bem feia: “Os sobreviventes foram levados…”. Estes foram salvos.
Mas ele pode ter batido no meio da noite, podem demorar a encontrar o carro virado num barranco, todo explodido ou amassado, com ele dentro, amassado – carbonizado, como se diz – muito difícil identificar a vítima, o Cid Moreira vai dizer no jornal amanhã. Aí eu já terei quase certeza, mais forte do que agora, quando eu imagino o acidente na tela de cinema do teto do quarto.
Pode ser que eu fique chateada amanhã, porque ser amassado e carbonizado é um castigo muito punk de Deus ou dos santos.
Desde ontem que eu não rezo mas eu sinto uma comichão na barriga e na carne de dentro das bochechas, como se borbulhassem infestadas por formigas dançantes. É assim que é começar a vida? Imagina quando eu puder colocar o formigamento para fora? E aí, se alguém perguntar por que eu não estou chorando, eu vou poder contar como ele era em casa. Que Deus leva de repente quando a pessoa é desse jeito.
Mas e o pai da Letícia? Ela gostava dele porque ele era bom, ela chora por ele porque ele era bom. Um bom homem, um bom pai. Aí eu não sei dizer, Deus, qual é a tua. Se não podia ter levado o meu no lugar do pai dela, sabe? Foi o que eu pensei quando a Letícia faltou à aula e a professora contou o que aconteceu. Mas realmente não sei dizer. Naquele dia, quando o pai da Letícia morreu, eu não acreditei em Deus nem em santos.
4.
Assim que acabar essa música eu vou rezar, depois que eu dançar mais uma vez jogando todo o meu peso no chão de tacos de madeira, agradecer a Oxalá, à Cabocla Jurema, cantar a música pra Cosme e Damião e toda a falange das crianças que apesar de eu ter pensado que não podiam mais, não deixaram de olhar por mim.
O portão da garagem abrindo estremece o vidro da janela, a música para porque a fita acabou e porque teria de acabar de qualquer maneira, num momento como este. Ouço a porta do carro abrir, ser batida, fechada com força; a chave gira na porta da casa, a televisão na sala emudece e a voz dele sobe até meu quarto muito viva, a tempo de eu correr para o banheiro, fechar o trinco e sentar no box de azulejo frio. Eu vou lembrar deste dia pra sempre porque eu dancei achando que meu pai tinha morrido.
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