+ [O clipe desta Dose é homenagem ao Fred Leal, do Baile]
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Não acredito em coincidências. Mas não posso negá-las com muita firmeza, tampouco posso aceitá-las sem reservas. É uma opinião dupla enunciada na mesma afirmativa – não acredito em coincidências – e interpretada em dois níveis. Posso dizê-lo como um comentário cético em relação às cadeias de eventos que desembocam em um único fato de aparência conclusiva. Como um ciclo de acontecimentos que se encerra em grand finale, cujo intuito parece ser a transmissão de uma mensagem que nós nunca entendemos direito. Nesse caso, não acredito que tenham um significado. São antes uma prova de que o que há de meticulosamente arbitrário nesse ciclo é o que governa nossos passos.
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Um homem sabe que o riso leva a Deus, que Deus fala com o homem através da comédia e não da miséria, a que nos tornamos indiferentes pela sua persistência.
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Procuro os lugares Onde, esqueço de propósito dos lugares Quando. O sentido do meu relógio avariado já não é o mesmo dos movimentos: já vi o tempo parar num boteco, quase dava pra segurar no ar; pairou quieto em cima da mesa como se fosse uma mosca varejeira zumbindo de mim.
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O machismo não está mais aqui há alguns anos, tendo sido substituído pelo meninismo; que, por sua vez, de inédito nada tem. Sempre existiu por baixo de pêlos viris e ternos bem ou mal-cortados. O meninismo costumava ser o lado doméstico, escondido e até meio lúdico do machismo. Bem traduzido no tom imperativo com que o menino da casa perguntava se a sua refeição ou roupa estava pronta, entre outras questões práticas que cabiam à governanta, secretária, faxineira, mãe e amante do moleque. Dar ordens com a obstinação de um adulto era o que protegia sua infância cristalizada da curiosidade alheia, de quem ainda não tivesse conhecimento de que o homem da casa é sempre menino.
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Vencidos os 21 degraus da escada-caracol que leva ao terraço da casa, encontro o que resta da minha família dentro da piscina pré-moldada de fibra de vidro. Mãe, tias e tios – todos nus. Sei desde criança: quando o verão atinge 40 graus no Rio de Janeiro, não há lei nesta casa de subúrbio. Um cão pincher de 30 centímetros e meio, pêlo da exata tonalidade dos cabelos de minha tia, também está na água, nadando um pouco melhor que seus pobres parentes humanos. São todos inocentes; sinto culpa e constrangimento indevidos. – moi, Seesaw, eu, a regra é essa: quase sempre aqui em cima, no Dose Diária, vem algum trecho meu, depois som ou cena de filme, seriado, novela wth, depois foto minha.
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Com exceção dos gringos e da população de rua, cujo estoque se renova mais rápido que o dos chamados moradores “propriamente ditos”, pode-se afirmar com toda a certeza que o Rio de Janeiro – especialmente sua Zona Sul – é uma pracinha de microscópica cidade do interior. Ou cidadezinha cenográfica de novela das oito. – eu, aka Seesaw, in Pracinha ZS
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São perfeitos todos os que acusam de qualquer coisa seus vizinhos, amigos, parentes; ou não teriam a cara-de-pau de sempre acusar. – Seesaw aka eu in “Preguiçosos Patológicos”
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“Ainda não tinha aprendido a deixar o jogo para os jogadores. Ficava lá dentro, confiando em que me enxergavam trajada com o uniforme de pelo menos um dos times em campo. Mas passavam por cima de mim feito uma turba muar. Eu levantava a cabeça e me enxergava pairando acima do meu corpo, enxergava o detalhe disney de um X desenhado numa das minhas bochechas e passarinhos rodeando minha cabeça, fazendo as vezes da dor, como nos desenhos animados velhos. Então descia novamente ao chão, ao corpo, de onde infelizmente nunca havia saído, e percebia que não havia times; cada um jogava por si.” – Giannetti (do Bunker)
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