QUERO SER VAGABUNDA

Quando vejo vagabundo na praia, em bar, olhando vitrine, saídas de praia, batendo papo furado em horário comercial, havaianas, em qualquer local, em dias suados de semana, desejo ser como eles, senão nesta vida, na próxima. E eu preciso da esperança de uma próxima existência, porque esta parece fadada a me decepcionar em termos de viabilidade da vagabundagem.
Vagabundo com pinta de quem tem o suficiente pra se safar, roupa boa sem luxo, pés calçados, dentes na boca, alguma renda vinda não se sabe de onde, de um esforço muito mínimo, quem sabe, que mal toma duas horas de seu dia, talvez algum esquema, vai saber, ou coisa honesta herdada, vai saber, ou milagre, vai saber. E que seja o bastante para que tenha o dia e a noite a seu dispor.
Sonho com a vagabundagem, como com uma impossibilidade.
Cobiço a vagabundagem, no meu mundo creio que ela se iguala à riqueza infinita de bens que prescinde a necessidade de um emprego. E talvez nada tenha a ver com o dinheiro, talvez ela seja viável somente na ausência do dinheiro.
Estudando alemão por lazer? Vagabundagem. Trepando por grana? Não é o tipo de vagabundagem de que falo.
Não sou boa em exercer a vagabundagem. Quando me é dado o tempo livre, eu estranho o tempo que passa. Que parece que não passa nunca. Estranho os vazios do dia, que não são susto para nenhum profissional da vagabundagem – para estes, viram sonecas, cervejas, palavras-cruzadas, Angry Birds.
Falta-me a coragem imensa que é necessária para ser vagabunda total. Vagabunda total no sentindo de ruagem, de coçação, de nada-a-fazer.
Nao sou boa total vagabunda. Sou apenas uma excelente vagabunda caseira. Não raro tenho preguiça até de ir a praia, coisa que o vagabundo outdorsy faz sem o menor esforço. E vagabundagem e preguiça não são intrínsecos. Vagabundear exige até disposição física. Invejo demais os vagabundos.
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