Já ocorreu de eu acordar ou anoitecer em São Paulo com a vaga idéia de ter havido entre meu esquecimento e o presente um trajeto, malas parrudas e o laptop, de ter adormecido desde o momento em que começara a arrumar as tralhas pra viagem. Uma sensação de caminhar durante o sono me acompanhava até que eu descesse na Tietê ou no Congonhas. O local da desova de muitas expectativas movidas pela necessidade de fazer a vida numa cidade menos ensolarada, distante da distração das praias e amizades de adolescência, de tempo e sentimento mortos.
Não ainda não deu certo pra mim. Idas e vindas entre minha cidade, o Rio, e São Paulo, procuro uma janela pra chamar de minha no meio da prediarada. Vi fachadas bonitas e horrendas, entrei na fila pra avaliação de seguro-fiança e desisti já na última semana, paciência esgotada com tentativas de golpes de corretores autônomos de imóveis e a demora das seguradoras em avaliar, pelas minhas posses, se em SP eu moraria mal ou bem. Qualquer coisa me serviria, quando eu já perdia a paciência, cinco meses depois de estar mais em SP que no Rio, de escrever meu trabalho no colo em saguões de aeroporto, quartos de hotel, na rodoviária. Maior parte do tempo na casa de uma amiga, que me incentivava: “É assim mesmo, magia, sorte e bater perna por aí.” Não dizia com essas exatas palavras, mas injetava-me algum ânimo quando eu me decepcionva mais uma vez, esquivando-me de esquemas de aluguel canhestros ou caixotes de cimento caindo aos pedaços. “É a pior época para se procurar apartamento em São Paulo,” garantiu um outro conhecido, com quem o grupo que bebericava cerveja na festa fazia coro. Qual há de ser a boa época? Em novembro já era Natal; em dezembro, a cidade deserta; em janeiro, lentamente voltando à vida mas ainda de ressaca; em fevereiro, carnaval; em março, a invasão de estudantes de todo o Brasil, que chegam para a vida universitária na capital, disputando comigo até mesmo vagas em casas feitas de pensão. Se a boa época vem depois de toda a espera, tardes inteiras em cartórios, decepções, a pressão de dividir o tempo entre muito trabalho e o tanto de horas que se precisa pra correr bairros inteiros atrás de placas de “Aluga-se” ou endereços anunciados nos jornais e sites especializados – thanx but no, thanx.
Voltei num dia de calor extremo e sol assassino habitual ao Rio de Janeiro, pela primeira vez de mala e cuia neste ano – havia passado por aqui com menos bagagem na época do baticum na Sapucaí, que acompanho para a Folha há dois anos. Trouxe o cansaço por ter insistido mais do que merecia na ladainha da mudança num momento não propício, ou sei lá por qual motivo ofracasso da busca. Pra mim foi um espanto voltar e ficar. Espanto condicionado por meses de bate-e-volta imediatos, de não sossegar nem lá nem cá. Passado o susto, a constatação que eu ainda tento mastigar e engolir: vejo tudo diferente aqui, ou mudou mesmo tudo. Até as pessoas. Principalmente elas, as minhas, as de sempre. O Rio me parece menor, distâncias mais curtas entre os bairros. Mas a minha gente daqui agora parece que vive noutro planeta, onde o tempo em que permanecemos afastados – eu, na minha vida de paulista; eles na carioquice habitual – impede a chegada de qualquer vôo ou carro ou ônibus onde eu ponha os pés com a intenção de ir rever-lhes. Fiquei no meio do caminho, em lugar algum.
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