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04/11/2009 · Deixe um comentário

Atualizem seus bookmarks => Agora escrevo, além da coluna na Folha de S. Paulo, o blog Apocalipso na Folha Online.

Escritora Cecilia Giannetti estreia blog na Folha Online

da Folha Online

A escritora carioca Cecilia Giannetti, colunista da Folha, estreia nesta quarta-feira (4) o blog “Apocalipso” na Folha Online.

O blog será uma extensão da coluna publicada quinzenalmente às terças-feiras no caderno Cotidiano (acesso só para assinantes), em que a escritora aborda temas como cinema, música, literatura, relacionamentos, série de TVs e internet.

Cecilia Giannetti é autora do romance “Lugares que Não Conheço, Pessoas que Nunca Vi” (Ediouro/Agir, 2007) e tem contos publicados em antologias da Ediouro, Record, Casa da Palavra e La Nuova Frontiera (Itália). Foi também finalista do Prêmio São Paulo de Literatura 2008.

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ANIMAIS LITERÁRIOS

03/11/2009 · Deixe um comentário

Minha coluna da semana na Folha de S. Paulo. Trechim:
TINHA acabado de me sentar num banquinho do Campo de Santana a aguardar, em sereno transe psicótico, pelo ApoCalipso que, rebolativo, nos engolirá, quando uma cotia sussurrou, com ar de mistério, segredo que no íntimo parecia desejar que muita gente viesse a conhecer através deste jornal:
- Psiu, escrevi um compêndio de minhas confissões e gostaria que a srta. escritora passasse este original a algumas editoras, por obséquio. Anote o número do meu celular e também meus Twitter, Gtalk, MSN, Facebook e Myspace, por favor…
Com o pedido senti meu corpo gelar, apesar dos 29 graus que castigam o centrão do Rio -chova ou faça sol, sobe do asfalto a quentura e os carros tediosamente engarrafados na avenida exalam aquela fumaça que distorce suas formas, como se as superfícies dos veículos dançassem molengas.

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GONZO GOES ON

01/11/2009 · 2 Comentários

Para esclarecer:

Na coluna do jornal, publico crônicas.

6 Rubrica: literatura.
texto literário breve, em geral narrativo, de trama quase sempre pouco definida e motivos, na maior parte, extraídos do cotidiano imediato
7 Derivação: por extensão de sentido. Rubrica: literatura.

“Um estilo de reportagem baseada na idéia do escritor William Faulkner segundo a qual a melhor ficção é infinitamente mais verdadeira que qualquer tipo de jornalismo – e os melhores jornalistas sempre souberam disso.”

“Eu não obtenho satisfação alguma com a velha e tradicional ótica do jornalista – “Eu cobri a história. Eu dei uma versão equilibrada,” Thompson disse certa vez em entrevista à revista Atlantic Unbound. “O jornalismo dito objetivo é uma das razões pelas quais a política na América tem podido se mostrar tão corrupta por tanto tempo. Você não pode ser objetivo sobre Nixon. Como você pode ser objetivo sobre Clinton?”.

Abaixo, uma conversa sobre aquele jornalismo literário mais louco que Hunter Thomson produzia, com perguntas enviadas por alunos de jornalismo da PUC:

***

Você se considera uma jornalista gonzo?

Qualquer repórter que trabalhe numa redação convencional hoje só pode dizer que é gonzo se estiver de porre, de sacanagem ou delirando. O jornalismo gonzo é uma radicalização de um estilo de jornalismo que surgiu no começo do século passado e até hoje ainda é considerado ousado: o jornalismo literário. Imagine o gonzo. Não é apenas ousado. É comercialmente inviável, principalmente no Brasil.

O Veríssimo, da Trip, não faz gonzo; ele sabe – e brinca com isso – que faz bonzo. Eu não fiz gonzo; fiz algumas matérias que eu acho bacanas porque pude escrever do jeito que queria, porque misturei o que eu realmente pensava sobre o que estava acontecendo à minha volta, porque foram escritas na primeira pessoa – como na matéria em que eu entrei de penetra nos ensaios de uma gravação do Jorge Ben e contei duas histórias, na verdade: a minha, de penetra, e a do que rolava entre Jorge e os músicos, o som, os técnicos, etc – mas isso não era gonzo. É descaralhado mas não posso dizer que é gonzo.

Más notícias: não existe jornalismo gonzo fora de Hunter Tompson.

Boas notícias: o que é viável a partir do gonzo é justamente o que podemos fazer depois de conhecer os textos dele e ficar com vontade de escrever algo tão impactante quanto. É essa vontade que tem que virar texto vivo, com personagens e cenários vivos, com ritmo. O que a gente DEVE fazer com jornalismo gonzo não é tentar reproduzir cacoetes de Hunter Thompson mas escrever diferente mesmo, diferente da fôrma de bolo que ensinam na faculdade, que perpetuam nas redações. Não ser regurgitador de release, não depender exclusivamente das assessorias de imprensa, ir mais pra rua, sair, ver a cidade onde mora, procurar o assunto na rua, entre desconhecidos e até entre as pessoas que conhece, entre os amigos.

Notícias melhores: se você observar o fenômeno dos blogs de guerra, dos blogs de judeus e palestinos relatando a merda que vivem lá, o User Generated Content – tendência encampada pela BBC, de utilizar material como fotos e matérias feitos por não-jornalistas, não-repórteres, gente que estava nas ruas e no local no momento de cada acontecimento importante -, o citizen journalism… isso tudo é uma evolução que tem a ver com o Gonzo. E, nesse sentido, estilo está mais vivo e disseminado que nunca. Apenas não é o gonzo, nada nunca vai ser, só os textos do Hunter. Isso é uma mutação. Uma possiblidade com a qual eu acho que Hunter Thompson teve muito a ver, abriu caminhos pra ela.

Não importa quais limitações te coloquem numa redação. Não se acomode, não se faça de besta. Não dá pra escrever matéria em primeira pessoa nem no jornal mais metido a moderninho que houver no Brasil mas escrever reportagem em primeira pessoa também não quer dizer porra nenhuma, não quer dizer que seja genial. O leitor quer sim – precisa, exige, porque nada mais nos jornais e revistas interessa, tudo é monótono – ele procura textos diferentes. Mas não basta emular uma coisa que foi vanguarda na década de 60. Não adianta.

Alguns textos do Lester Bangs eram quase gonzo (mas ele era mais voltado pra música e isso carregava também coisas muito pessoais do cara pra cada texto, então também não podiam ser qualificados de estritamente gonzo).

Na atualidade, existem jornalistas gonzo em atividade? Quem são e onde estão?

A coisa mais perto disso que eu já vi é o Xico Sá. Mas ele é um gênio com personalidade e background todo e somente dele.  Excelente escritor. Mas não digo que fulano é gonzo a sério, prum cara sério é que nem xingar a mãe. E não porque o diminua: é que é uma coisa que não existe. Xico também gosta do Hunter mas tem seus encantos particulares, digamos assim. Personalidade. Tem “pechêra”.

Quem Foi Hunter Thompson para você?

Um encosto do bem.

Hunter Thompson alegava que só conseguia ir fundo em suas matérias loucas, sob forte efeito de drogas que segundo ele o ajudavam a manter a sanidade. Com você ocorre o mesmo? ou você encara as matérias loucas que faz de cara limpa?

Essa história é uma das características do jornalismo gonzo capazes de servir de exemplo e mostrar como é ridículo tentar seguir aquilo como método.

O uso que Hunter Thompson fez das drogas e a abordagem dele sobre drogas em sua obra é um produto típico dos anos 60 e 70.

Hoje acho que a gente deve manter a cabeça acima do nível da água. É uma sorte não pegar uma parada que te foda a capacidade de pensar. Melhor não arriscar muito. Pensa em todas as pessoas realmente idiotas que você conhece. Se você se acha mais articulado, inteligente, interessante que elas, não vai querer correr o risco de estragar isso; devia agradecer. Se você se acha mais burro, mais monótono, não vai se tornar mais interessante se tomar uma parada.

Hunter Thompson tinha personalidade e o lance de encher o pote de tudo que era metanol e cia. era parte dessa personalidade mas não quer dizer que geral tenha que fazer a mesma coisa. Se nego começa a imitar isso também, onde é que tá a personalidade, o estilo próprio? E, principalmente, não se come ácido e depois escreve matéria.

Não tem nada mais estupefaciente que ver as fotos de um chá de bebê arruinado numa chacina, a mãe grávida com os pezinhos metidos numas havaianas respingadas de sangue, bandejas de doces cheias de sangue, sangue nas paredes da merda do barraco. E descobrir que quem fez isso foi o BOPE, foi a polícia do Rio de Janeiro. Isso tava no jornal! Você quer estar fora de órbita quando acontece um negócio desses ou você quer escrever?

Não cabe mais esse tipinho de jornalista drogado. Não a sério. E alguém tem que falar sério, agora, já que é barbárie. Não dá pra seguir modelo de maluquice que era hype (hippie) há 30 anos. Mas não dá também pra escrever lead/sublead tudo quadradão igual a tudo; e não é só a abordagem estética, é o aproveitamento das fontes, é buscar pautas diferentes no meio do caos.

Onde está a principal característica que diferencia o Gonzo Journalism do New Journalism?

Anexei a monografia ao e-mail, é um trabalho que eu quero continuar e que tá sem revisão mas fala disso também:

O interesse pela literatura e sua imersão no mundo do jornalismo, aliados à natureza irrequieta e ao temperamento explosivo de Thompson, resultariam no surgimento de uma diferenciação de Jornalismo Literário, mais ligada à contracultura: o jornalismo gonzo.

De acordo com o próprio inventor do gênero, que é também seu único praticante, Hunter S. Thompson, gonzo é: “Um estilo de reportagem baseada na idéia do escritor William Faulkner segundo a qual a melhor ficção é muito infinitamente mais verdadeira que qualquer tipo de jornalismo – e os melhores jornalistas sempre souberam disso.”

Isto não significa que a ficção seja “mais verdadeira” que o jornalismo – ou vice versa – mas que tanto “ficção” quanto “jornalismo” seriam o que Hunter denomina “categorias artificiais”; ambas as formas, quando realizadas da melhor maneira possível, seriam dois caminhos para atingir o mesmo fim.

O jornalista gonzo deve estar presente na ação que descreve, sendo capaz de vivenciar e documentar a experiência ao mesmo tempo, com “o talento de um grande jornalista, o olho de um fotógrafo, e os culhões de um ator”. Uma das características mais marcantes do jornalismo gonzo é que suas matérias são escritas sempre com uso da primeira pessoa no texto. O jornalista gonzo dispensa as pretensões à objetividade e escreve quase sempre em primeira pessoa. Suas matérias não são mera narrativa, mas relatos de experiências em que participa da ação. O “eu” do jornalista interfere na matéria: nela, reportagem e repórter não estão separados, viabilizando através deste estilo crítica, paródia, ironia e alerta. O riso, a gafe, o erro, o inesperado, podem produzir algum conhecimento.

“Gonzo é uma espécie de Buñuel do jornalismo. Mais do que tirar fotos engraçadas e escrever textos espirituosos, quer rir de si mesmo, da sua cultura, do próprio ato de rir. Assim como o cineasta espanhol, o gonzo quer mostrar a família defecando na sala e almoçando no banheiro. Para isso, é importante o jornalista partir do ‘eu’, da experiência ao vivo, in loco. Para depois recriar a história, ao narrá-la. Não como quem enuncia uma verdade, mas como quem faz um convite. Você aceitaria?” [Eduf]

Para Hunter S. Thompson, a objetividade no jornalismo é um artigo raro, senão inexistente: “Todos procuramos por ela mas quem pode apontar a direção? Não se dê ao trabalho de procurá-la em mim – não sob nenhuma linha escrita por mim; ou por qualquer outro em que se possa pensar.” Por este prisma, o gonzo é um jogo com a definição de objetividade jornalística: Através do uso do “eu” em seu discurso, põe em dúvida a apreensão de toda a complexidade que o leitor costuma pensar ter após ler uma reportagem – Até que ponto é possível realmente saber tudo o que se passou em um evento reportado por um jornalista da maneira tradicional, se o relato é “imparcial” e “objetivo”? E até onde podemos confiar no que relata um jornalista gonzo? – O jogo de perspectiva leva o leitor a questionar tudo o que lê, a pensar a informação e não apenas ler e aceitar o que lhe é entregue como um fato, passivamente.

O jornalismo gonzo ganhou as páginas de veículos como a revista Rolling Stone, tornando-se popular na década de 60, por abordar temas ligados à contracultura de sua época – festivais de rock, drogas, hell´s angels, entre outros, são temas que atraíram profundamente Thompson ao longo de sua carreira. Neste âmbito, o jornalismo gonzo oferece outro tipo de jogo que também tem como objetivo deslocar conceitos e mostrar um outro lado da tão celebrada e disseminada cultura norte-americana e do american way of life. “Eu não obtenho satisfação alguma com a velha e tradicional ótica do jornalista – “Eu cobri a história. Eu dei uma versão equilibrada,” Thompson disse certa vez em entrevista à revista Atlantic Unbound. “O jornalismo dito objetivo é uma das razões pelas quais a política na América tem podido se mostrar tão corrupta por tanto tempo. Você não pode ser objetivo sobre Nixon. Como você pode ser objetivo sobre Clinton?”, concluiu.

O movimento beatnik pode ser considerado o maior ponto de partida para o surgimento do New Journalism de Tom Wolfe?

Mas nem fudendo.

Como você vê a questão ética nos estilos New Journalism e Gonzo Journalism?

São passíveis de cagadas tanto quanto o jornalismo ortodoxo. Na verdade, o jornalismo literário e o gonzo são bem MENOS passíveis de cagadas antiéticas porque neles se esconde menos, se dissimula menos que no jornalismo chamado convencional. No literário e principalmente no gonzo não existe o mito da isenção. Eles oferecem também dados sobre o indivíduo que escreve a matéria – honestidade que mostra ao leitor um dado a mais com que possa julgar as informações que lhe são passadas sobre um fato: permite que o leitor saiba que existe gente – e não uma máquina 100% isenta – escrevendo aquilo ali e que, como gente, tem obsessões, humores, receios, hesitações, questionamentos em relação aos fatos e às fontes, em vez de dissimular tudo numa nuvem de objetividade falsa que é a base dessa estrutura de jornalismo velha, caquética, que ninguém mais agüenta ler. Não há hoje veículo como a revista Realidade circa 64, por exemplo. Mas há demanda por esse veículo.

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PLANO DE VERÃO

22/10/2009 · Deixe um comentário

Minha coluna da semana na Folha de S. Paulo aqui. Abaixo, trechim:


“EU TINHA UM plano de verão. Era o mais perfeito que alguém jamais poderia ter concebido pra estação (cá estabeleço egoisticamente que todos incluiriam na concepção de plano perfeito para o período do verão a atividade da escrita, quando a maioria absoluta preferiria, após a praia, churrasco, sexo, sono, TV. Qualquer coisa exceto escrever).

Outro parêntese, antes de partir ao plano egoísta (por verão compreendemos também, em cidade fervida de praias, a primavera).

Passemos ao plano. Vejam qual simplicidade. Acordar cedo, ir a Ipanema, aprender a técnica local de me largar e de pegar amizade com a dona de alguma barraca que alugue cadeiras de praia e venda comes e bebes, a quem passaria a confiar meus pertences sempre que desejasse dar um mergulho; ir e voltar sem apreensão. Todos são bons.

Daí, ler bastante, abandonada na areia. Voltar pra casa depois da hora do almoço, deitar com o que restasse do livro companheiro de praia, dormir também com ele. Acordar por volta das 17h, tomar café como se fosse manhã novamente. Trabalhar então teclando fábulas e frilas (ah, a vida romântica do escritor contemporâneo!) até as 23h, ou mais que rendesse. E no dia seguinte, praia outra vez, desabater do agasto, mexer novas ideias na cabeça.

O que ocorreu foi o seguinte, porém: começou por chover dia sim, dia sim, dia não, dia sim. Em seguida, caí e quebrei um pé e mais alguma coisa no entorno; operaram o pé, colocaram pinos e uma placa de metal muito à moda androide de Blade Runner, que agora é parte do meu corpo, do tornozelo à perna.

(…) Saudades do Rio, apesar de morar nele; não saindo à rua, idealizo-a, devolvo a ela certa dose perdida de romance.

(…)”

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RUMOS DO LIVRO NOVO

19/10/2009 · Deixe um comentário

[Café Fatal, romance que se passa em Berlim]

Duas personagens se descolaram totalmente de seus modelos originais; têm trajetória, comportamento, pensamentos dissociados de pessoas que conheci e quis descrever.

Agora conheço melhor seus derivados, como se rostos, fios de cabelo, pele e memórias tivessem se despregado de corpos vivos, e deixado, no lugar do que me era familiar, carcaças de estranhos.

Cruzar novamente com essas pessoas reais seria ainda mais bizarro do que ver um livro cuspir no chão uma personagem. Se, por acaso, uma dessas pegasse um avião ou o telefone para entrar em contato comigo, eu teria que dizer “Desculpe, mas você não pode atender; você não está”.

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TERRITÓRIO DO MAR

19/10/2009 · Deixe um comentário

“O jornalista é um peixe de aquário. Tem que ser bonitinho e ficar ali naquele mundozinho, tem que fazer pirueta, tem que fazer gracinha. Se ele não for bonitinho, ele perde o emprego. O escritor é um peixe de fundo, habita o território do mar onde não chega a luz, o sol. Em geral ele é feio. Mas ele tem o oceano todo pra ele.” – Carlos Heitor Cony, em palestra na Academia Brasileira de Letras (2003).

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PASTELÃO OU SOLITÁRIO NUNCA MAIS

15/10/2009 · Deixe um comentário

“Qualquer criação que tenha unidade e harmonia, suspeito de que seja obra de um artista ou inventor que haja trabalhado com a audiência de uma única pessoa em mente.”

Dificilmente o resto do livro vai ser melhor que a introdução do Kurt Vonnegut. “A base do humor do Gordo e o Magro, creio eu, era que eles se esforçavam ao máximo em cada prova que tinham pela frente. Nunca deixavam de enfrentar de boa fé o seu destino, e eram fantasticamente adoráveis e engraçados na tentativa. Havia muito pouco amor em seus filmes. Era freqüente haver uma poética situação de casamento, o que é diferente. Tratava-se, no entanto, de mais uma prova – com possibilidades cômicas, desde que a ela todos se submetessem de boa fé”. O livro é de 1976, comprei usado num sebo em Ouro Preto. Fui colega de trabalho do dono da loja, que nunca vi de cara amarrada. Nasci quatro anos depois de 76 toda vez que consigo ser como ele. Converso (assunto relaxar antes de escrever) – Sabe como é que é? Você leva isso aqui – ele diz, saindo da bagunça que toma o canto da loja onde empilham os livros recém-chegados pra limpar. Vem tudo das casas das viúvas e dos jornalistas que recebem 800 títulos diferentes toda semana pra resenhar, ou assim quer a minha pouca imaginação hoje – Leva isso e vê se não resolve.

“Outra coisa: sou incapaz de distinguir entre o amor que tenho por gente e o que sinto por cachorros”. – Melhorou a concentração? – Ele lembra que é a segunda vez que me vê na loja na mesma semana. “Pastelão ou solitário nunca mais” dentro da minha bolsa pra ler no metrô, se eu conseguir espaço suficiente pra segurar um livro à minha frente no metrô às 18h. – Herbert H. Herbert: “Ficar sozinho pode ser muito solitário. Mas pelo menos com gente em volta podemos ficar solitários com barulho”. – Vonnegut foi intoxicado por o Gordo e o Magro, ele pelo Jerry Lewis. Filtra qualquer coisa com Jerry Lewis. Decodifica um dia depois do outro com o que se lembra desses filmes.

Ele tem um isopor com gelo e cerveja atrás do balcão, embaixo do aparelho de som. De vez em quando vai lá e tira duas latinhas. O teste mais difícil é ficar sozinho e depois saber voltar pro mundo toda vez que precisar. – Cuma? – Desconfia que essa conversa vai degringolar, lata em riste – O irmão do escritor é cientista. Especializado em questões ligadas à atmosfera. O outro, você sabe em quê. Mas os dois querem saber o que está acontecendo por baixo do que escrevem, de números ou frases compridas.

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FOLHA DE S. PAULO

06/10/2009 · Deixe um comentário

Minha coluna da semana na Folha de S. Paulo, “Flash Forward 2016“.  Abaixo, trechim:

O ano de 2016 sempre esteve ali. Mas viver a transformação da cidade -obras, segurança, transportes, economia- in loco ao longo desses sete anos será -já é- como viver num futuro que não imaginávamos possível. É um “flash forward” legítimo causado pelas transformações por que a cidade e os cariocas passarão, a começar por uma mudança de fato impactante: a retomada de nossa autoestima e esperança.

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HÁ 20 ANOS

01/10/2009 · Deixe um comentário

Para não termos sangue e lágrimas, tem que haver suor e sacrifícios. Presidente Sarney, na televisão, anunciando mais um plano econômico.

Foi um golpe de cangaceiro do governo, nos moldes de Baby Doc e Ferdinand Marcos. PFL/RS reagindo ao destino dado ao relatório da CPI da corrupção contra Sarney, que o presidente da câmara, deputado Inocêncio de Oliveira, PFL/PE, tratou de arquivar rapidinho.

O senhor é um político de segunda classe que pegou carona na história. Fernando Collor, um político de primeira classe, dirigindo-se a Sarney no horário eleitoral.

Sempre estamos aqui, aos sábados e domingos, fazendo compras. Collor, na favela Vila Paranoá, Brasília, onde passa os fins de semana satisfazendo seus impulsos de consumo.

O Fernando hoje está mais equilibrado; se continuar assim, vou influir o máximo possivel a favor dele. Roberto Marinho, jornalista e presidente das Organizações Globo, sobre o filho de Leda e Arnon.


Quem venceu foi a mentira. Lula, ao admitir a derrota.

Espero que não nos arrependamos de tanta luta e espera pelas diretas. Ulisses Guimarães, na véspera do primeiro turno.


***

Os mais dados a crer no sobrenatural certamente procurarão os sinais, os avisos dentre as frases acima, retiradas de É dando que se recebe (Ática, 1994), do cronista Carlos Eduardo Novaes, livro que merece uma reedição ampliada, que deveria chegar aos dias de hoje, com novas aspas assombrosas de nossos políticos e dos grandes da mídia.

O “profeta” perdido em acidente de helicóptero, Ulisses Guimarães, é só um fantasma de peso nesta compilação dedicada “À memória de um país sem memória”. Soa atraente ao leitor brasileiro de hoje, não?

Editores, mexam-se. Porque os eleitores roubados, enganados, viraram zumbis sem esperança. Ler sobre o passado, recente e não tão recente, vai nos fazer imenso bem.

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INTENSIDAD Y ALTURA

25/09/2009 · Deixe um comentário

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Quiero escribir, pero me sale espuma,
Quiero decir muchísimo y me atollo;
No hay cifra hablada que no sea suma,
No hay pirámide escrita, sin cogollo.

[César Vallejo]

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