QUERO SER VAGABUNDA

Quando vejo vagabundo na praia, em bar, olhando vitrine, saídas de praia, batendo papo furado em horário comercial, havaianas, em qualquer local, em dias suados de semana, desejo ser como eles, senão nesta vida, na próxima. E eu preciso da esperança de uma próxima existência, porque esta parece fadada a me decepcionar em termos de viabilidade da vagabundagem.
Vagabundo com pinta de quem tem o suficiente pra se safar, roupa boa sem luxo, pés calçados, dentes na boca, alguma renda vinda não se sabe de onde, de um esforço muito mínimo, quem sabe, que mal toma duas horas de seu dia, talvez algum esquema, vai saber, ou coisa honesta herdada, vai saber, ou milagre, vai saber. E que seja o bastante para que tenha o dia e a noite a seu dispor.
Sonho com a vagabundagem, como com uma impossibilidade.
Cobiço a vagabundagem, no meu mundo creio que ela se iguala à riqueza infinita de bens que prescinde a necessidade de um emprego. E talvez nada tenha a ver com o dinheiro, talvez ela seja viável somente na ausência do dinheiro.
Estudando alemão por lazer? Vagabundagem. Trepando por grana? Não é o tipo de vagabundagem de que falo.
Não sou boa em exercer a vagabundagem. Quando me é dado o tempo livre, eu estranho o tempo que passa. Que parece que não passa nunca. Estranho os vazios do dia, que não são susto para nenhum profissional da vagabundagem – para estes, viram sonecas, cervejas, palavras-cruzadas, Angry Birds.
Falta-me a coragem imensa que é necessária para ser vagabunda total. Vagabunda total no sentindo de ruagem, de coçação, de nada-a-fazer.
Nao sou boa total vagabunda. Sou apenas uma excelente vagabunda caseira. Não raro tenho preguiça até de ir a praia, coisa que o vagabundo outdorsy faz sem o menor esforço. E vagabundagem e preguiça não são intrínsecos. Vagabundear exige até disposição física. Invejo demais os vagabundos.
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QUANDO EU VOLTEI

Já ocorreu de eu acordar ou anoitecer em São Paulo com a vaga idéia de ter havido entre meu esquecimento e o presente um trajeto, malas parrudas e o laptop, de ter adormecido desde o momento em que começara a arrumar as tralhas pra viagem. Uma sensação de caminhar durante o sono me acompanhava até que eu descesse na Tietê ou no Congonhas. O local da desova de muitas expectativas movidas pela necessidade de fazer a vida numa cidade menos ensolarada, distante da distração das praias e amizades de adolescência, de tempo e sentimento mortos.

Não ainda não deu certo pra mim. Idas e vindas entre minha cidade, o Rio, e São Paulo, procuro uma janela pra chamar de minha no meio da prediarada. Vi fachadas bonitas e horrendas, entrei na fila pra avaliação de seguro-fiança e desisti já na última semana, paciência esgotada com tentativas de golpes de corretores autônomos de imóveis e a demora das seguradoras em avaliar, pelas minhas posses, se em SP eu moraria mal ou bem. Qualquer coisa me serviria, quando eu já perdia a paciência, cinco meses depois de estar mais em SP que no Rio, de escrever meu trabalho no colo em saguões de aeroporto, quartos de hotel, na rodoviária. Maior parte do tempo na casa de uma amiga, que me incentivava: “É assim mesmo, magia, sorte e bater perna por aí.” Não dizia com essas exatas palavras, mas injetava-me algum ânimo quando eu me decepcionva mais uma vez, esquivando-me de esquemas de aluguel canhestros ou caixotes de cimento caindo aos pedaços. “É a pior época para se procurar apartamento em São Paulo,” garantiu um outro conhecido, com quem o grupo que bebericava cerveja na festa fazia coro. Qual há de ser a boa época? Em novembro já era Natal; em dezembro, a cidade deserta; em janeiro, lentamente voltando à vida mas ainda de ressaca; em fevereiro, carnaval; em março, a invasão de estudantes de todo o Brasil, que chegam para a vida universitária na capital, disputando comigo até mesmo vagas em casas feitas de pensão. Se a boa época vem depois de toda a espera, tardes inteiras em cartórios, decepções, a pressão de dividir o tempo entre muito trabalho e o tanto de horas que se precisa pra correr bairros inteiros atrás de placas de “Aluga-se” ou endereços anunciados nos jornais e sites especializados – thanx but no, thanx.

Voltei num dia de calor extremo e sol assassino habitual ao Rio de Janeiro, pela primeira vez de mala e cuia neste ano – havia passado por aqui com menos bagagem na época do baticum na Sapucaí, que acompanho para a Folha há dois anos. Trouxe o cansaço por ter insistido mais do que merecia na ladainha da mudança num momento não propício, ou sei lá por qual motivo ofracasso da busca. Pra mim foi um espanto voltar e ficar. Espanto condicionado por meses de bate-e-volta  imediatos, de não sossegar nem lá nem cá. Passado o susto, a constatação que eu ainda tento mastigar e engolir: vejo tudo diferente aqui, ou mudou mesmo tudo. Até as pessoas. Principalmente elas, as minhas, as de sempre. O Rio me parece menor, distâncias mais curtas entre os bairros. Mas a minha gente daqui agora parece que vive noutro planeta, onde o tempo em que permanecemos afastados – eu, na minha vida de paulista; eles na carioquice habitual – impede a chegada de qualquer vôo ou carro ou ônibus onde eu ponha os pés com a intenção de ir rever-lhes. Fiquei no meio do caminho, em lugar algum.

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QUARTOS DO CATETE

Instalam-se nesses hostels, os estrangeiros, em múltiplos quartos. Dormem em beliches que rangem, presentes nos predinhos estreitos, renovados dos anos 1940, apenas para o café da manhã de frutas de temporada, torradas de proveito do pão que já não era mais fresco, e queijo minas barato. Retornam para madrugadas de exaustão (não há aqui o toque de recolher) e roncos em quartos coletivos. Dividem-se entre mochileiros jovens e viajantes com dinheiro e sem opções, grupos entusiasmados por tudo que propagandistas locais e de revistas importadas dizem ser carioca e muito de nosso feitio – seja lá o que for mesmo isso. Estrangeirada de quem me sinto próximo, pelo jeito largado que se deixam ficar por aqui. Querem tanto estar na mais bela cidade, do mais belo país da estação. Não cabem mais nos hostels e hoteis de outros cantos da cidade mais badalados, abastados. Naufragaram aqui por forte desejo, feito o meu. EU, mais estrangeiro ainda, que sou daqui e não me sinto em casa. Sempre existe um mistério de cidade oculta que procuro na minha, e falho em descobrir.

+ [O clipe desta Dose é homenagem ao Fred Leal, do Baile]

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UM PRA QUÊ

Não acredito em coincidências. Mas não posso negá-las com muita firmeza, tampouco posso aceitá-las sem reservas. É uma opinião dupla enunciada na mesma afirmativa – não acredito em coincidências – e interpretada em dois níveis. Posso dizê-lo como um comentário cético em relação às cadeias de eventos que desembocam em um único fato de aparência conclusiva. Como um ciclo de acontecimentos que se encerra em grand finale, cujo intuito parece ser a transmissão de uma mensagem que nós nunca entendemos direito. Nesse caso, não acredito que tenham um significado. São antes uma prova de que o que há de meticulosamente arbitrário nesse ciclo é o que governa nossos passos.

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CAMINHO

Um homem sabe que o riso leva a Deus, que Deus fala com o homem através da comédia e não da miséria, a que nos tornamos indiferentes pela sua persistência.

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SEMPRE

Procuro os lugares Onde, esqueço de propósito dos lugares Quando. O sentido do meu relógio avariado já não é o mesmo dos movimentos: já vi o tempo parar num boteco, quase dava pra segurar no ar; pairou quieto em cima da mesa como se fosse uma mosca varejeira zumbindo de mim.

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MENINISMO

O machismo não está mais aqui há alguns anos, tendo sido substituído pelo meninismo; que, por sua vez, de inédito nada tem. Sempre existiu por baixo de pêlos viris e ternos bem ou mal-cortados. O meninismo costumava ser o lado doméstico, escondido e até meio lúdico do machismo. Bem traduzido no tom imperativo com que o menino da casa perguntava se a sua refeição ou roupa estava pronta, entre outras questões práticas que cabiam à governanta, secretária, faxineira, mãe e amante do moleque. Dar ordens com a obstinação de um adulto era o que protegia sua infância cristalizada da curiosidade alheia, de quem ainda não tivesse conhecimento de que o homem da casa é sempre menino.

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O AMARROTADO E O PASSADO

Não importa do quê ou como nos arrependemos, mas o arrependimento, apenas. Depois do arrependimento, não tem volta -  ninguém nunca mais é novo de novo. Alguns conseguem recuperar o antigo rosto iluminado, mas, para isso, é preciso deixar-se enlouquecer. – Giannetti (sempre aviso que é meu. Vai que um doido…)

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CALOR NO CORAÇÃO

Carregava jeitos de outros amores, tatuagens parecidas, curvas de músculos do passado.

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FAMILY SUMMER

Vencidos os 21 degraus da escada-caracol que leva ao terraço da casa, encontro o que resta da minha família dentro da piscina pré-moldada de fibra de vidro. Mãe, tias e tios – todos nus. Sei desde criança: quando o verão atinge 40 graus no Rio de Janeiro, não há lei nesta casa de subúrbio. Um cão pincher de 30 centímetros e meio, pêlo da exata tonalidade dos cabelos de minha tia, também está na água, nadando um pouco melhor que seus pobres parentes humanos. São todos inocentes; sinto culpa e constrangimento indevidos.  – moi, Seesaw, eu, a regra é essa: quase sempre aqui em cima, no Dose Diária, vem algum trecho meu, depois som ou cena de filme, seriado, novela wth, depois foto minha.

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