Woke up this morning blues around my head
No need to ask the reason why
Went to the kitchen and lit a cigarette
Blew my worries to the sky

I’m stepping out
I’m stepping out
I’m stepping out
I’m stepping out

If it don’t feel right you don’t have to do it
Just leave a message on the phone and tell them to screw it
After all is said and done you can’t go pleasin’ everyone
So screw it…

I’m stepping out
I’m stepping out
I’m stepping out baby
I’m stepping out

Baby’s sleeping the cats have all been blessed
Ain’t nothing doing on TV (summer repeats)
Put on my space suit I got to look my best
I’m going out to do the city

I’m stepping out
I’m stepping out
I’m stepping out babe
I’m stepping out (boogie)

I’m stepping out (hold it down)
I’m stepping out
I’m stepping out
Gotta gotta gotta gotta get out
I’m stepping out babe
Just awhile
Ain’t been out for days…

A SÍNDROME DO MUDAR-DE-TELA

POR CECILIA GIANNETTI

Cerca de um mês atrás um grupo de conhecidos debatia certo receio de se ficar cético ou frio demais em relação a conhecer novas pessoas e dar uma chance a relacionamentos que tenham a possibilidade de se tornar estáveis. É preciso dizer que essa conversa se desenrolou via web, conforme se dão tantos diálogos que mantemos hoje em dia. E que algumas dessas pessoas nunca se encontraram fora do espaço virtual onde tratam de temas variados, desde cultura, política e economia a dúvidas existenciais e sentimentais. Não é preciso dizer quem são essas pessoas, nem “onde” rolava o papo. Só é indispensável lembrar que esta é a natureza da internet, um caminho que ela estabeleceu para a comunicação livre e desinibida na dinâmica dos microcosmos dos chats, fóruns, redes sociais e listas de discussão online. Muitos de vocês frequentam algum desses espaços e compreendem perfeitamente seu funcionamento: não preciso explica-lo, sabem bem do que se trata.

Pode-se dizer que a maior parte das conversas de uma imensa fatia da humanidade se dá hoje através de mensagens na internet ou SMS. Arrisco sem medo de errar que hoje mais palavras são trocadas dessa forma do que cara a cara (não vale gritar “Skype!”). Frases são trocadas online e via celular entre milhares de pessoas o tempo todo – fazem isso enquanto estão no trabalho e continuam depois, ao chegar em casa, também quando saem à rua e sequer percebem que não lhes ocorre refrear o impulso de seguir acompanhando e participando do andamento de alguma conversa na web ou aplicativos como o WhatsApp. Isso não é novidade para ninguém com uma conexão (por cabo ou mesmo através da velha imprensa de papel) com o mundo atual. Comento porque, neste caso, o “u” tem tudo a ver com as “alças”. 

Um artigo de janeiro do “New York Times” ressuscitou com vigor na minha timeline do Facebook neste domingo. Partes dele foram traduzidos por um jornal brasileiro e ganharam a atenção dos nossos leitores – apesar de explorarem em vários parágrafos o tema do “date“. Não existe na cultura brasileira a noção de “date” (encontro) conforme é (ou era) utilizada em diversos outros países, na América do Norte e Europa. O artigo relaciona a popularização da paquera em sites como o OkCupid, também no Facebook e diversas outras vias de trocas de mensagens na web, com o fim do que os gringos conheciam como o seu ritual de corte que levava a relacionamentos bem sucedidos. Elenca depoimentos de jovens que simplesmente não sabem ou não conseguem marcar um cinema ou uma conversa a dois em um bar ou restaurante, e daqueles que ainda esperam que do outro lado do celular que envia uma mensagem pelo WhatsApp esteja uma pessoa que possa se tornar especial em sua vida (dado o devido tempo para que se conheçam de fato).

No primeiro grupo estão os que enviam mensagens de último momento a alguém por quem tenham interesse, mas o convite acaba demonstrando o contrário: “tô aqui no pub com uns amigos, se quiser chegar…” Por aí. O que essa mensagem quer dizer, no mundo real, é: “vamos encher a cara (o álcool é ingrediente indispensável nesse cenário social de retração, ele é o desinibidor) e se a gente for com a cara um do outro, no final da noite a gente se pega.” 

Esse comportamento também não é novo. Faz parte da tal cultura do ficar. Mas sofreu uma adição que o tornou ainda mais volátil.

A aproximação e a oportunidade de se criar um vínculo que leve à intimidade é sobrepujada por uma selva de ruídos: a oferta no mercado de gente disponível online parece infinita.

A internet te entrega um mundo de pessoas de bandeja – é realmente fácil pensar que se pode “pegar” todas elas, ou ao menos uma quantidade considerável delas, ou que a sua grande chance de se apaixonar está sempre adiante, uma tela à frente, noutro avatar – nunca no que se encara no presente.

Imagino que foi esse o aspecto do artigo do “NYT” que fez soar o alarme em alguns leitores de uma cultura sem “date“, entre leitores no nosso país: para que estacionar em uma só pessoa, e gastar alguns dias tentando conhece-la (um cinema em um final de semana; um barzinho no próximo; no terceiro final de semana vocês se beijam… quase um mês!) se durante esse período você pode estar perdendo algo/alguém melhor?

Não vou citar comentários daquele grupo de conhecidos virtuais, da conversa que mencionei lá no comecinho. Seria uma traição a um contrato jamais assinado e constantemente respeitado por todos os participantes. Cito apenas o meu comentário, porque sou dona dele e não me avexa em nada. O comentário que postei sobre o assunto tratava dessa angústia assim: “Vejo hoje as pessoas trocando de tela muito rápido, sem ver direito o que tem em cada uma, passando logo para a próxima, feito o Tom Cruise em ‘Minority Report’.” 

Trocar de tela é uma analogia sobre passar ao parceiro ou parceira seguinte de pronto – como John Anderton e outros personagens se portavam no longa diante de uma tecnologia que, mais de uma década após a estreia do filme dirigido por Spielberg, temos em nossos celulares e tablets (exceto que não há ainda um aplicativo para prever o futuro que se compare aos videntes pre-Cogs da ficção). Com um rápido movimento das mãos sobre a superfície do gadget, avança-se até a próxima cena ou foto, descartando o que já se viu. Avançam sempre e céleres: “The best is yet to come“, clássico de Cy Coleman e Carolyn Leigh, famoso na voz de Sinatra, ganha um novo significado. Significa ansiedade, com uma pitada de desespero. O “melhor” está sempre por vir, você não o está experimentando agora, neste beijo, neste toque. Avançando, sempre e célere. 

Algumas pessoas concordaram com a minha analogia naquele debate. Pensei então que se tratava de uma coisa de geração, e local – ou menos do que isso: um pessimismo passageiro, desabafado online. Agora, lendo o texto do “NYT”, encontrei um eco para aquele pensamento.

O artigo menciona ainda o livro da escritora e pesquisadora norte-americana Donna Freitas, “The End of Sex: How Hookup Culture is Leaving a Generation Unhappy, Sexually Unfulfilled, and Confused About Intimacy” (O fim do sexo: como a cultura do “ficar” está deixando uma geração infeliz, sexualmente frustrada e confusa em relação à intimidade), que deverá ser lançado em abril. Nas entrevistas que conduziu com estudantes, muitos deles já formandos, a autora descobriu imaturidade, insegurança e fragilidade diante da possibilidade de um relacionamento que não seja rápido e vazio. Descobriu que pouco sabiam sobre como marcar um encontro de verdade (o “date“) ou mesmo “chegar em alguém” – de forma não-virtual. Donna afirma: “Eles se perguntam: ‘Se você gosta de alguém, como é que você se aproxima dele? O que diz? Que palavras usar?’”. 

Eu discordo um pouco do foco escolhido pela dona Freitas. O problema não é bem a cultura do ficar. A cultura do ficar está aí há muito tempo e velhos praticantes/ficantes, hoje casados ou em relacionamentos duradouros, podem comprovar que ela não os transformou em solteirões insensíveis sem a menor noção de como proceder para atingir a intimidade com outra pessoa de uma forma saudável. A questão casca-grossa é o que chamo de “Síndrome do Mudar-de-Tela”. Que lá eles chamam de “FOMO” – fear of missing out, medo de estar perdendo algo “melhor”; uma forma de ansiedade ampliada pela web. 

Antes, era “virar a página”. Se um relacionamento ou prospecto não dava certo, virava-se a página. Faz sentido então que hoje mudemos de tela. E muito mais rápido do que se virava uma página na vida.

Este algo melhor pode estar entre as 4 mil pessoas que você tem adicionadas em seu Facebook, e na rede estendida de seus amigos de Facebook, pode estar entre os milhares de perfis disponíveis nos sites de namoro em que você está cadastrado e naqueles onde você ainda não se cadastrou, pode estar no novíssimo e sem-rodeios Bang With Friends, ou de bobeira no Twitter, onde vai postar alguma frase curta que você vai achar engraçada e genial e aí você vai checar a foto do perfil de quem a postou, e vai gostar do que vê, e então bastará você retuitar a frase para, quem sabe, comecem a se falar? Somente para que você troque esse avatar que antes o atraiu por um outro que o atrairá assim que retornar a insuportável sensação de estar parado em um lugar onde não vale a pena estar. 

É um chilique compulsivo que se tornou modo de vida. Uma nova escala em déficit de atenção. Assim, é mais fácil deixar passar apressadamente algo muito mais interessante do que um compulsivo desse tipo pode supor, enquanto ele(a) corre a mão pela tela atrás de coisa melhor. Sempre e célere, next.

DOIS CACHORROS

Christy “Twodogs” tinha levado um pé da namorada, então vendeu o seu caminhão em Derry, na Irlanda, em troca de coordenar trabalhos em minas no Zimbabwe, Murowa, Kampangala, Congo. Fiscal, ele contou à garçonete quando ela se sentou na sua mesa uma noite, quase na hora de o dono tocar o sino atrás do balcão do bar e fechar. Ele precisava de férias da engrenagem. Ele precisava de um paraíso. Ele disse a ela que a fome do mendigo no Leblon, pedindo um dinheirinho a quem sai do banco ou do shopping, é ridícula perto do que viu por lá, onde tinha vergonha de comer e beber com as ruas lotadas de cadáveres natimortos e zumbis esquéleticos. Eles dividiram uma cerveja.

Noutra noite, ele continuou, assim que ela pôde se sentar com ele pouco antes do last call. “Nunca mais quero ver aqueles rostos novamente, dá vergonha de estar vivo”, disse, por cima do pint de cerveja escura e cremosa a R$ 30. Ele precisaria de pelo menos seis meses de putaria no Brasil pra se reafirmar como o Dois Cachorros que sempre foi. Estava ficando compassivo demais, deprimido demais, preocupado demais com o desfile de restos de gente.

Christy Dois Cachorros tem 52 anos e dois brincos de argola dourados e grossos na orelha esquerda. Uma noite a garçonete, intimidade tomada, zombou do estilo do homem. Ele levantou da mesa e a fez acompanha-lo até o mapa da Irlanda, que fica bem do lado do espelho com a marca GUINESS pintada em cima. Ela, dor nas coxas, no cóccix, nos ombros por causa dos saltos, e pra cima e pra baixo equilibrando bandejas com canecas de 700ml. Dois Cachorros contou a ela sobre os ciganos da Irlanda, que usavam aquelas argolas, como ele, e que não são – não eram – exatamente ciganos lendo a mão das pessoas na rua ou mudando de acampamento pra acampamento, mas um grupo que explodiu um bocado de prédios e carros por algum tempo. Do jeito que ele falava do Reino Unido dava pra ficar com raiva até dos Beatles. “Fiz um monte de merda anos atrás, como a gente faz quando é novo. Alguém tinha que se mexer.”

No braço esquerdo, Dois Cachorros tem tatuado o símbolo do renascimento da Irlanda forte, uma fênix. No Brasil, tatuou outra fênix no braço direito, explica: símbolo do seu renascimento. E daí pra dizer que casava com ela e a levava pra uma dessas encantadoras minas de trabalho escravo na África foi um pulo. Ela chegou a dizer sim e os dois se beijaram no corredor escuro depois da escada de madeira que leva ao banheiro, mas no dia seguinte ela ficou sóbria e entendeu que Dois Cachorros não estava pra brincadeira nem lhe oferecia só um jeito de obter dupla nacionalidade, foi o fim. Ela nunca viu a África e ela não gosta da África.

Ele começou a agir esquisito e seguia a garçonete pela rua toda madrugada depois de o pub fechar. De dia, ela evitava passar pela porta dos bares onde sabia que ele ficava, senão ganhava companhia pra qualquer coisa besta que quisesse fazer, andar pela praia, manicure ou cinema. Depois de quase um mês disso, ele desistiu. Ela tirou folga do pub na noite da festa de despedida do Dois Cachorros. De propósito, mas só porque não acreditava de verdade que ele iria embora. O maior problema daqueles dois era a comunicação.

Dois Cachorros bebeu muito no Brasil antes de anunciar sua partida pra mais uma temporada como fiscal. Ia ter que ver aqueles rostos outra vez. Dois Cachorros nunca é demitido, Dois Cachorros sai do emprego quando quer. Nacos de informação sobre Dois Cachorros que ela guarda na cabeça. Ela então pensa sobre os nossos Dois Cachorros. Estes nunca vão conseguir ir daqui à Irlanda beber Guiness com o dinheiro que ganham transportando laticínios num caminhão que nem é deles. Melhor pra eles, aliás.

Ela não conversa com outros gringos no final da noite no pub como fazia com Dois Cachorros. Mas simpatiza com os gringos pedreiros e caminhoneiros e fiscais de minas, os gringos que vêm pra cá e não são Joyce, não são gênios, não são empresários, não são presos a nada. Vivem bêbados e são mesmo mais simples que um botão. Têm todo o direito de desperdiçar o dinheiro que ganharam passando os dias na praia e as noites em bares que reproduzem a atmosfera de sua terra natal, pubs ingleses e irlandeses – só que cariocas. Cagando e andando pra qualquer traço da nossa cultura que não seja rebolativo. Alguns deles vivem em Manchester e nunca ouviram falar no Hacienda, ela conta, nem na “Cena de Manchester”, nem naquele filme sobre a “Cena de Manchester” que passou no festival; eles não vão a shows, não compram CDs, não querem saber. Ela não gosta dos gringos que fazem safari em bugres pelas favelas.

Dois Cachorros contou a ela sobre as tatuagens e as bombas mas nunca explicou por que era o Dois Cachorros.

A garçonete não dorme à noite. Pega das 18h e vai até as 4h, 5h da manhã, bandejas, copos, canecas, garrafas, caixas de papelão, tipstits, inglês afiado. Em um ano, quem sabe, junta dinheiro suficiente e faz uma visita ao Dois Cachorros e suas duas tatuagens horrorosas de fênix, seja lá onde ele estiver.

Carta decomposta

POR CECILIA GIANNETTI

Devia ter imaginado, quando chegou em revolucionário envelope. Não pelos cabos tradicionais.

Dobrei-a cuidadosamente e guardei numa gaveta de onde só tirei quando quis comparar você às pessoas comuns e à escrita e à fala dessas pessoas, e dos apresentadores de telejornais e dos atores nos filmes. Você não soa como eles.

“Não é minha culpa que todo mundo viva de porre,” você diz, “Porre de serotonina, benzodiazepínicos, adrenalina, gonadotropinas, esteroides, de esperança, de pura e inocente e infantil esperança,” você diz, “Poderia escrever um livro sobre a esperança como alucinógeno. O entusiasmo. A felicidade é uma alucinação. É você quem ativa os mecanismos que te fazem ver coisas que não existem. O copo meio cheio ou meio vazio que sorri pra você,” você diz, “Ri de você”. Você diz que felicidade é insanidade, ativada pelo entusiasmo, pela crença, pela fé, pela esperança.

“Como você pode não enxergar?,” você diz, “Ninguém proíbe a fé. A fé é incentivada. A esperança é cultivada. Ninguém para essa gente. Embalada nesse espírito, se qualquer idiota te abre um sorriso, pra você é a salvação, é a vida que vai mudar – e não é,” você diz. “Pode ser, por algum tempo, mas não é, definitivamente, não é. E o seu corpo e a sua cabeça, pode ter certeza, têm limites em sua tão badalada capacidade de adaptação,” você diz.

“Quer pagar pra ver?,” você finalmente pegunta.

“Quantas pancadas você agüenta? Quantas vezes numa vida você suporta ser sacaneado, enganado, discriminado, mal pago? Cada vez que o seu olho brilha pro sorriso de um idiota, você se droga. A adrenalina sobe, a serotonina aparece, várias outras substâncias que vão te fazer maluca. Pareço uma professora velha tentando ensinar o óbvio, deste lado do sinal uma incógnita, as iniciais de um nome próprio, do outro um zero. Faça as contas. Me escreva de volta, com a lição pronta,” você pede.

Assisto à sua carta se descompor.

A única resposta possível a ela seria:

Se você tiver a oportunidade de retornar ao otimismo, deve aproveitá-la como quem adota uma outra nacionalidade e recomeça a vida em um país próspero.

Mas não sei mais enviar cartas.

Na noite quente

POR CECILIA GIANNETTI

Tivemos uma semana daquelas cá nas crônicas. Tive que falar até em Feliciano e no inferno dele, e nas operadoras de telefonia/banda larga e nosso inferno causado por elas, ignorado pela Anatel. Por isso que, chegando a sexta, achei melhor falar de uma coisa gostosa. Vai também uma música relacionada ao tema. Relaxem, é sexta.

Duas meninas magricelas tomando banho de mar no escuro. Uma deitada sobre um banco de areia, a outra de pé com água até os quadris. Olhando pra frente, luzes pequenas se acendem e apagam ao longe.

Uma vez minha melhor amiga me tirou do meio do mar numa madrugada do Arpoador. Da areia, onde estava, demorou um pouco a entender que eu não conseguia mais lutar com as ondas. Mas assim que se deu conta do perigo, correu pra dentro d’água. Mais alta que eu, me ergueu e me arrastou até a areia, onde botei pra fora boa parte de toda a água que tinha engolido. Essa foi por pouco. Devo tanta coisa a tanta gente. Sou a pessoa com a vida mais endividada que conheço.

Amanhã no colégio as duas meninas que tomam banho de mar agora vão usar só a parte do cérebro dedicada à imaginação, enquanto matam aula de corpo presente. A lembrança do brilho do mar noturno será a melodia predominante em suas cabeças até que de fato retornem à praia como rainhas das noites quentes.

Nadei muito mesmo foi em lagoa poluída, quando tinha a idade dessas duas meninas. Nas férias acordava antes de todo mundo e ia caminhar sozinha na beira da água. Era Saquarema. Quando eu voltava, quase toda a casa tomava café na mesa que o avô do meu coleguinha, que era quem me convidava pra ir passear por lá, tinha feito, ele mesmo, orgulho. A maioria ia dormindo até meio-dia e não aproveitava a hora mais perfeita, a lagoa vazia.

Dava muita felicidade andar na areia pensando e vendo a água toda igual aqui e toda diferente ali. Assim eram as lagoas de férias da adolescência, poluídas e pacíficas. Naquela hora nem os quiosques estavam abertos. Os quiosques eram precários, barracas de pau mal enfiadas na areia, uma tábua pra servir de balcão onde se comia peixe frito e pedia uma cerveja. Meu coleguinha, dono da casa de Saquarema, pediu uma vez uma cerveja. Deu revertério.

Não chegava a ser uma lagoa de pneus boiando, mas a água era nitidamente suja. O que ignorávamos conscientes.

A casa ficava cheia todo verão, e todo verão os nossos corpos chegavam à casa mudados. E a gente se olhava e sabia que aquilo era crescer junto.

Eu tinha a minha pessoa preferida na casa, que gostava de acordar tarde. Quando ela descia, eu voltava pra lagoa com ela, pra dar risada. Eu não tinha coragem de entrar no caiaque e ficava sentada na areia olhando pra ela de binóculo. Ela remava até o meio da lagoa fazendo gracinhas pros garotos que sempre prestavam atenção nela e abanava as mãos pra mim quando achava que a gracinha era muito boa. Só pra ter certeza de que eu estava vendo também. Eu abanava as mãos no alto de volta. Não ouvíamos o que gritávamos uma pra outra, só um gralhar distante.

Uma vez ela ficou remando até o fim da tarde, quase noite. Eu não aguentava mais ficar sentada ali mas não podia sair e deixar o caiaque na mão de uma pessoa só. Da minha pessoa preferida. Pra duas, já era complicado arrastar de volta pela areia. Fiquei num impasse, imaginando que ela estava querendo me sacanear, ou por outro lado, que apenas exagerava no exercício. Não ia deixar a garota ali, o caiaque pesado. E depois podia dar confusão na casa. Também não ia nadar até ela, porque podia ser mesmo que estivesse de saco cheio de mim. O que seria triste.

Aprisionada em minhas paranoias, esqueci de tudo e deitei olhando o céu. E dormi.

Lá pro quase noite, a garota tentou se aproximar remando o trambolho e me acordou, gritando, ainda longe da beirada. A cara toda vermelha do sol de uma tarde inteira, e desanimada e com enjôo e cansaço. Tinha ficado entalada no caiaque. Tinha um rabo enorme, que era um sucesso, mas naquele dia foi problema. Travou o traseiro ali e, logo nas primeiras tentativas de se libertar, percebeu que acabaria virando na água e se afogando, se continuasse. Ficou com vergonha de pedir ajuda aos garotos pra quem se exibia. Não podia perder seu público, passar de musa à palhaça. Quando desencanou um pouco dos olhares masculinos e fez sinal pra que eu nadasse até lá, eu já estava dormindo de papo pro ar. Não teve outra idéia senão esperar todo mundo ir embora da Lagoa pra se aproximar e pedir que eu lhe desatochasse o traseiro do caiaque.

As meninas sem bunda que vejo nadando à noite não teriam esse problema. Que sem graça.

Cabidão

POR CECILIA GIANNETTI

Sua conexão com a internet tem dado problemas? E o celular? A TV a cabo? Há muito tempo e sempre, continuamente?

Você já falou com todos os funcionários e relatou suas agruras à ouvidoria de sua operadora, sem qualquer resultado, sequer resposta?

Já socou a parede e alguns travesseiros enquanto esperava na linha por 40 minutos, só para o call center desligar na sua cara sem resolver o seu problema?

Aí você levou o problema à Agência Nacional de Telecomunicações.

A Anatel tudo resolveria. “É claro!”

Exceto que a Agência não…

***

Basta uma olhada nas queixas de clientes retirados de sites em redes sociais de operadoras de banda larga mostram como essas empresas andam tratando os usuários, livremente, sem soluções por parte da Anatel. São uma pequena amostra dentre centenas de queixas não atendidas – nem pela operadora nem pela Anatel.

Eneida Moura: “Já fiz reclamação na Anatel e nada! Descaso total! Ouvidoria não funciona. Anatel tb não resolve.”

Nayara Maia: “Já registrei reclamações na ANATEL e mesmo assim o meu problema não é resolvido.”

Juju Arcuri: “Como consumidora peço a todos que compartilhem a falta de respeito que a GVT / GVT tem com a gente! Já foi solicitado um serviço desde do dia 25/02 e até hoje preciso brigar para conseguir uma simples tranferencia de endereço! Já foi feito protocolos na Anatel e de nada adiantou a empresa se quer nos comunicou nada!”

Hendol Hilarino: fiz uma denúncia na ANATEL pq fiquei sem sinal da TV e internet desde o dia 13/03/2013 e até hoje NADA FOI FEITO, O TÉCNICO NEM APARECEU AQUI EM CASA. COM 17 PROTOCOLOS, INÚMERAS RECLAMAÇÕES, DENUNCIAS NA ANATEL, A GVT SIMPLESMENTE NÃO FEZ NADA, NÃO COMPRIU O PRAZO DE ASSISTÊNCIA TÉCNICA!”

Sah Santos: “E aí, há mais de 30 dias esperando pelo tecnico e nada!! 4 dias de trabalho perdido, um protocolo do Procon e na Anatel e nem assim?”

Talita Albuquerque: Anatel 1331 c/ protocolo. Mas o melhor mesmo é o Procon.”

Claudio Mileski: “Estou esperando DESDE NOVEMBRO um retorno O QUE ACONTECE ?????????????????????????????????????????????????????”

Ilídio Marcelo: “(…) pelos outros comentários aqui, a ANATEL e a Corregedoria não funcionam, claro“.

Estas são apenas as reclamações públicas feitas na página de somente uma operadora de banda larga em uma rede social. Até o fechamento da coluna, somavam-se mais de duas mil reclamações de usuários do serviço, iniciadas em fevereiro de 2013.

Para não dizerem que é “falta de sorte” de quem está com essa operadora e para ter seus direitos garantidos recorreu à Anatel, vamos às reclamações encontradas no site de outra operadora de banda larga, ver se por lá também nos deparamos com esse tipo de problema, que chamo carinhosamente de “romeu e julieta”, feito o doce – só que é amargo: uma imensa fatia da incompetência da operadora + um matacão de descaso da Anatel:

Francisco Alfredo: “A velocidade de 10 Mega é uma mentira, já reclamei, já vieram técnicos e nada, não passa de 2 mega a 3 mega, oscilando continuamente.”

Henrique Beranger: “Possuo contra eles seis denuncias na Anatel pelo inumeros desrespeitos e transtornos. Estou tentando cancelar (o serviço) agora e não consigo, mais uma reclamação para a Anatel.”

Da Página “Todos contra a NET “DIA DO TESTE DE PACIÊNCIA DA ANATEL: SERÁ UM DIA PARA FAZER RECLAMAÇÕES SOBRE A NET… VAMOS VER SE ELES NÃO VÃO SE INCOMODAR…”

Ainda em dúvida?

Afinal, por que tamanha desconfiança nossa em relação à fiscalização às operadoras?

São atribuições da Anatel:

- “Promover o desenvolvimento das telecomunicações do País de modo a dotá-lo de uma moderna e eficiente infraestrutura de telecomunicações [veja aqui], capaz de oferecer à sociedade serviços adequados, diversificados e a preços justos, em todo o território nacional”.

- “Reprimir infrações dos direitos dos usuários; e exercer, relativamente às telecomunicações, as competências legais em matéria de controle, prevenção e repressão das infrações da ordem econômica (…)”.

Se tais deveres fossem levados a cabo, não existiriam avalanches de comentários públicos revoltados, deixados nos murais das páginas das operadoras em uma rede social, cuja criação tinha por objetivo que fossem “Curtidas” pelos consumidores, em vez de – com toda a razão – cobradas sem esperança de retorno e apedrejadas.

***

Em 2011 o Inmetro avaliou os contratos oferecidos pelas operadoras de banda larga brasileiras o carro-chefe das irregularidades entre nossos provedores. Segundo o órgão, todas as operadoras têm rabo preso no quesito: não fornecem um contrato ao consumidor, contrato que é um direito de quem compra o serviço e uma obrigação da operadora. Em vez disso o usuário precisa entrar no jogo de esconde-esconde dos sites das operadoras – são em regra verdadeiros labirintos onde se fica escravo de formulários de registro que não concluem o registro do usuário por problemas técnicos ou, ironicamente, por má conexão com a internet – para finalmente visualizar o contrato.

E aí, outra surpresinha constatada pelo Inmetro: não há contrato de qualquer provedora de banda larga que dê garantias sobre a totalidade do serviço oferecido, o que contraria o código de defesa do consumidor.

Nada disso deveria acontecer se a Agência Nacional de Telecomunicações…

Em relação à telefonia, outro abacaxi das telecomunicações brasileiras: na semana passada, após o lançamento do Plano Nacional de Consumo e Cidadania, no Palácio do Planalto, o presidente da Anatel, João Rezende, afirmou que as novas regras a serem implementadas para a melhoria dos serviços ao consumidor devem fazer as tarifas de telefonia diminuirem. E que a maior transparência na publicação de tarifas e dos pacotes destinados aos clientes deve gerar um mercado mais competitivo, o que pode resultar na redução das tarifas.

De acordo com Rezende, a Anatel está sobrecarregado com queixas dos consumidores contras as operadoras. Ele conclui com uma obviedade que parece comprovar o que se diz da agência reguladora: que é um “cabide de empregos”.

O que há na conclusão de Rezende que nos induz a considerarmos a definição “cabide de empregos” para sua Agência?

Isto: que é importante que os call centers das empresas atuem de forma mais efetiva, pois as queixas dos clientes não são solucionadas nos call centers das empresas.

Por quê?

Porque se as empresas 1) oferecem péssimos serviços com preços elevadíssimos e 2) atendem mal, quando chegam a atender, seus usuários via call center; e falham miseravelmente em oferecer reparos essenciais a seu bom funcionamento, tudo isso acorre porque quem deveria dar uma dura nessas empresas não o faz. E a Anatel, de acordo com suas atribuições acima descritas, deveria conferir a eficácia dos serviços todos de tais empresas.

O mesmo pode ser dito sobre as operadoras de internet banda larga no país.

Em fevereiro foi criado o REPNBL-Redes – Regime Especial de Tributação do Programa Nacional de Banda Larga para Implantação de Redes de Telecomunicações, um regime que beneficia as operadoras de banda larga com reduções de impostos. A medida prevê um investimento adicional de até R$ 16 bilhões pelo, e o governo deixará de receber aproximadamente R$ 6 bilhões até 2016. 

DECRETO Nº 7.921, DE 15 DE FEVEREIRO DE 2013

CAPÍTULO V

DA FISCALIZAÇÃO

Art. 20.  A ANATEL, quando demandada pelo Ministério das Comunicações, fiscalizará a execução dos projetos, inclusive em relação ao estabelecido no inciso III do caput do art. 19. 

Art. 23.  Para subsidiar a análise dos projetos de que trata este Decreto e a formulação e a avaliação da política nacional de telecomunicações, a ANATEL disponibilizará anualmente ao Ministério das Comunicações as informações georreferenciadas e as características técnicas da infraestrutura atualizada das redes necessárias para fruição dos serviços de telecomunicações de interesse coletivo.

Se hoje as operadores vivem de truque, vendendo gato por lebre, oferecendo 10 megas e entregando nem metade disso, será que a ajudinha do governo, sem a devida fiscalização do órgão responsável por ficar de olho neles, a medida vai adiantar?

O otimista Rezende sorrria mais uma vez: “É claro!”. 

Invasão de realidade

POR CECILIA GIANNETTI O futuro da propaganda é a realidade, e essa realidade inclui muita mulher no controle. É Cindy Gallop quem diz. Se eu trabalhasse com isso, lhe daria ouvidos. Aos 52 anos Gallop é uma empresária e consultora bem-sucedida que levantou fortuna fazendo tudo o que gosta. Sua apresentação de cerca de quatro minutos no TED de 2009 foi a mais falada do evento, em que apresentou seu plano de ataque contra a “pornografização da cultura: uma atitude doentia generalizada a respeito d sexo e da sexualidade, movida pela indústria pornográfica.” Por falar em realidade, Gallop é fundadora justamente de um website que define como feminista, mas não pornográfico (no sentido da pornografia predominante) o MakeLoveNotPorn, cuja crescente coleção de vídeos é a antítese da estética do cinema e vídeos pornôs de internet. Do site:

“MakeLoveNotPorn não julga, nem aponta o que é bom e o que é mau. Sexo é a área da experiência humana que abrange um enorme número de gostos possíveis. Todos devem ser livres para saber o que gostam de fazer e o que não gostam. MakeLoveNotPorn não é anti-pornografia. Eu gosto de pornografia e vejo pornografia regularmente.  MakeLoveNotPorn destina-se simplesmente a ajudar a inspirar e estimular diálogos abertos, saudáveis sobre sexo e pornografia, a fim de ajudar a inspirar e estimular relações sexuais mais abertas, saudáveis e completamente agradáveis.”

Em entrevista à comediante Katie Goodman, dispara: “Sentir-se degradada e fazer o que faz só pelo dinheiro não é exclusividade do universo da pornografia ou de strippers. Sentir-se degradada e fazer o que faz só pelo dinheiro é uma realidade em qualquer setor de qualquer indústria que se possa enumerar.” Se você já trabalhou em um lugar que detestava e talvez um ou vários funcionários que gostavam de fazer “brincadeiras impróprias” constantemente, você entendeu a que se refere a frase acima e talvez neste instante tenha sentido necessidade de reprimir algumas memórias desagradáveis que estavam guardadas, com a ajuda de um benzodiazepínicos que além de mundialmente adorado custa bem barato nas nossas farmácias. Mas o que interessa é que a mensagem chegou até você, não é? Toma uma abraço. Quem ainda não sabe que isso acontece nos mais variados ambientes de trabalho, ou se nega a acreditar, por vocês não podemos fazer nada. Volte para o pornhub. Senão, tem mais: “E em termos do tratamento que as mulheres recebem em alguns ambientes de trabalho, ele pode ser tão pavoroso e basicamente degradante e deprimente quanto qualquer experiência de uma stripper.” Discutir a estética da indústra pornográfica não é objetivo da coluna, deixamos isso para pesquisadores com mais tempo livre e tesão por tomos de centenas de páginas, que certamente deve ser o que resultaria de um estudo sobre o tema. Mas um exemplo da indústria de filmes pornográficos “amadores” resume a questão levantada por Gallop com o seu MakeLoveNotPorn. Ele é bem diferente do que se encontra em sites de “amadores”, como o Home Grown Video. Este afirma que trabalha com vídeos feitos por “gente comum” em circunstâncias totalmente livres. Porém, o Home Grown Video, entre outras coisas, dita onde cada casal deve posicionar sua câmera – o que não é uma política inocente: os ângulos captados de acordo com essa exigência acabam sendo os mesmos ângulos usados em filmes pornô com gente fazendo sexo aeróbico em vaginas que passaram por cirurgias plásticas. No final, os casais “amadores” tendem a tentar reproduzir o que já é feito pela indústria pornográfica. O Home Grown Video oferece inclusive instruções sobre como cada garota “amadora” deve se comportar e gemer diante da câmera. E, ora, sabemos que quase toda a pornografia na web rotulada de “amadora” é feita por produtoras profissionais se passando por “amadores”. A história contada por Gallop sobre sua passagem pelo encontro internacional de publicidade Cannes Lions Awards Festival dá conta de como a pornografia pode influenciar a publicidade e velhos hábitos de gente comum. “Assim que cheguei em Cannes corri para a praia pública e arranquei a parte de cima do meu biquíni. Aí olhei em volta e ninguém mais estava de topless.” Estranhou. Fazia cinco anos que não ia a Cannes, mas nas vezes anteriores em que frequentou a praia lá, tinha mulher de topless pra chuchu. “Então voltei pro meu quarto e tuitei sobre isso. Eu disse, “França, qualé? Por que eu era a única mulher na praia em Cannes com meus peitos de fora?” E aí uma das minhas seguidoras me mandou um link para um artigo que afirmava que, de acodo com uma pesquisa feita na França anquele ano, mulheres mais velhas, da minha geração, sentiam-se felizes, confortáveis na praia de topless. (Antiga prática nas zoropa). Mas a esmagadora maioria das mulheres mais jovens não tiram mais a parte de cima dos biquínis ou acham que é um problema fazê-lo, porque têm vergonha do próprio corpo. Então eu disse à minha plateia em Cannes: eu sei exatamente de onde é que vem isso. Quantos de vocês trabalham com planejamento estratégico em publicidade? Mãos se levantaram. Aí eu falei: quantos de vocês, do planejamento estratégico, falam com o departamento criativo, ou seu cliente, ou toda a equipe que detém uma conta sobre que o seu público-alvo para tal campanha é um jovem de 18-24 anos de idade e ele tende a ter um determinado de trabalho e ele vê entre duas e quatro horas de pornografia de dia ou de noite e é isto que lhe causa impacto sobre a maneira como ele percebe as mulheres e se relaciona com a namorada. Silêncio mortal.” Na mesma fala em Cannes, Gallop afirmou que o futuro da publicidade está entregue ao olhar feminino “uma vez que as mulheres são a maioria das compradoras na maioria dos setores de mercado, a maioria dos usuários de mídias sociais são mulheres, e elas também se expressam mais via meios digitais do que os homens.” No entanto, hoje, a maioria da propaganda que tem como target a mulher é criada por homens, e a maioria das pessoas que avaliam a criatividade investida nessa propaganda é masculina, diz. No próprio Cannes Lions de que participou, quando ocorreu o episódio da praia, cada um dos jurados era homem. “Esta palestra não é sobre responsabilidade social nem estou aqui dizendo que as marcas devem enxergar isso como um problema; sou eu dizendo que o futuro da publicidade e da propaganda não tem nada a ver com estereótipos, o futuro da publicidade e da propaganda tem a ver com o real. O olhar feminino e a criatividade feminina empregados na publicidade, segundo informou a plateia do festival, vai trazer um novo approach ao meio que deve apetecer tanto ao público masculino quanto ao feminino.” É ver para crer. *** Cindy Gallop também fundou o If We Ran The World, que reúne plataformas de ação e usuários (chamados de empresários) dedicados a espalhar sua ideia e cooptar mais gente para transforma-la em realidade. Pode ser algo bastante simples e concreto, como, digamos, obter a instalação de bicicletários em seu bairro, ou mais subjetivo, como “Conseguir levar as pessoas a pensar realmente a respeito de como querem viver.”

Um inferno para Feliciano

Do Instagram do pastor Marcos Feliciano, postado na segunda-feira, 18: de cabelos molhados em um salão de beleza, “Momento descontração… Raridade!!!”, dizia legenda da imagem.

POR CECILIA GIANNETTI

Mais de 300 empresas enviaram seu manifesto à Suprema Corte dos Estados Unidos exigindo o fim do DOMA - Defense of Marriage Act, que, assinado em 1996, transformou discriminação em lei, ao assegurar a definição do Governo Federal norte-americano que considera casamento somente a união entre um homem e uma mulher.

Muitas dessas empresas são conhecidas nossas do dia-a-dia: Apple, Nike, Microsoft, Starbucks, Google, Facebook, Twitter, Amazon, Adobe, Levi Strauss, eBay, Disney, Intel, Johnson & Johnson, Pfizer e Xerox.

Na próxima semana a Suprema Corte ouvirá as argumentações a favor e contra direitos humanamente básicos para casais do mesmo sexo. Pode se tornar um marco na história da comunidade LGBT, não só a norte-americana. Para melhor ou pior, dependendo dos resultados.

Enquanto no Brasil quem tem cabeça tenta desfazer nela o nó que é ver o pastor Marco Feliciano (PSC-SP), alvo de dois processos no Supremo Tribunal Federal – um inqúerito em que é acusado de homofobia e uma ação penal por estelionato; e que ainda afirmou publicamente que africanos e seus descendentes são “amaldiçoados” – nomeado presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados, outra parte do mundo vai em direção diversa. 

Melhor será, claro, que os Estados Unidos passem a garantir que companheiros (as) do mesmo sexo de militares possam a partir de então obter financiamentos para comprar sua casa; que a companheira de uma mulher morta em combate ou vítima de doença terminal possa receber benefícios; que as leis de imigração não possam mais separar famílias encabeçadas por casais do mesmo sexo.

Os prognósticos são favoráveis:

Mais aí veio o Obama, querendo se re-eleger, e ele conhece bem seu eleitorado: decidiu não apoiar o DOMA. Quando o caso foi aceito pela Suprema Corte, sua administração encaminhou um documento instando-a a derrubar o DOMA. Mas os Republicanos jogaram mais de 3 milhões de dólares em apoio a tal lei discriminatória.

Nem todo republicano é bicho-papão quando se mexe no vespeiro LGBT nos EUA.

O Senador (re-pu-bli-ca-no) Rob Portman anunciou na quinta-feira passada uma mudança em sua posição em relação ao casamento gay. Portman, representante de Ohio, tornou-se o primeiro republicano no Senado a apoiar a causa. Tem uma história pessoal por trás disso: descobriu que Will, seu filho de 21 anos, é homossexual. Restou-lhe passar para o outro lado, afirmando que deseja que o filhote venha a ter os mesmos direitos de que goza o restante de sua prole, hetero. Will tuitou na sexta-feira passada: “Estou especialmente orgulhoso do meu pai hoje.”

Além de Portman, mais 21 senadores que haviam votado a favor do DOMA viraram casaca pro lado do bem e agora se opõem à lei. Que também não é popular entre cerca de 300 empresas e prefeituras, que também enviaram à Suprema Corte suas manifestações exigindo a extinção do DOMA. Sociólogos (a American Sociological Association inteira, para ficar mais claro) e organizações médicas (America Psychological Association, American Medial Association, American Academy of Pediatrics, American Psychiatric Association e a National Association of Social Workers) não se esquivaram do problema, enviando também seu documento à Corte contra o Doma.

Imaginem um apoio desse peso no Brasil. Faria Feliciano e associados se sentirem como que lambidos por fogo, nas profundezas lá de vocês-sabem-onde. Não é novidade que as empresas brasileiras, como a seguradora Vida Freedom (a primeira no Brasil a apostar em seguro de vida para casais gays), há muito já descobriram o potencial consumidor do público gay. E a Petrobras reconhece, desde 2007, o direito a benefícios previdenciários de casais de mesmo sexo, além de patrocinar a Parada do Orgulho LGBT desde 2007.

Voltando à vaca quente gringa, o ex-presidente Clinton, o próprio que transformou o DOMA em lei nos anos 1990, baixou a cabeça e escreveu o artigo “É hora de derrubar o DOMA“, publicado no início deste mês pelo “Washignton Post“, em que afirma: “Passei a crer que o DOMA contraria os princípios, e é de fato incompatível com a nossa Constituição.”

Na próxima semana o povo norte-americano e os demais atentos às questões de direitos de igualdade para a comunidade LGBT mundial estarão de olho para ver como essa história acaba nos Estados Unidos.

No Brasil, o buraco é mais embaixo. E gente como o pastor Marco Feliciano, que diz acreditar na ideia de inferno, deve saber que esse buraco carrega ladrões, racistas e homofóbicos direto para lá.

A 16 quadros por segundo

POR CECILIA GIANNETTI

“Ficar sozinho pode ser muito solitário. Mas ao menos com gente em volta podemos ficar solitários com barulho”. – Herbert H. Herbert, personagem de Jerry Lewis em “O Terror das Mulheres” (“The Ladies Man“, 1961).

Para Henry Miller, o comediante era um meio de a humanidade chegar a Deus, era uma criatura capaz de esvaziar os manicômios, sem propor uma cura mas tornando todos loucos. E a música, um tônico para a glândula pineal, o abridor de latas da alma. 

A ideia de fugir do meu escritório no meio do dia, como quem mata aula, me ocorre como piada. Só pode ser. Ir ao sebo agora é de uma irresponsabilidade atroz da minha parte, uma aventura. Recorro ao amigo livreiro antes de enfrentar o Word brancão e suas demandas.

Tapo os ouvidos com os fones e a playlist (cue sheet), que batizei de “\o/” no iPod, faz o acompanhamento sonoro. A rua fica engraçada quando saio de casa pela primeira vez em cinco dias bem contados. Enxergo como se captasse tudo em uma cadência de 16 fotogramas por segundo e projetasse em fast motion automaticamente por trás das minhas pálpebras a 24 fps, aumentando de tal forma a velocidade da ação que o registro parece contaminado por uma energia extraordinária. Os cachorros que se encontram e se cheiram e nesse balé se embaralham coleiras, bichos e donos. A Guarda Municipal, homens e mulheres uniformizados com suas cabeças girando comicamente ao redor, olhares perdidos e mãos inúteis na cintura, sobre a calçada vazia de onde os camelôs acabaram de desaparecer feito mágica assim que o primeiro apitou o sinal avisando a chegada dos cacetetes. Um ônibus tão lotado que os passageiros viajam com seus corpos encaixados feito peças de Lego.

Somos todos peças intercambiáveis da Máquina, destino que pode se apresentar trágico ou cômico, dependendo da velocidade de projeção em que você escolhe enxerga-lo, bem como do acompanhamento sonoro, que nos tempos do cinema mudo era feito por pianistas ou orquestras, de acordo com cue sheets.

O Word brancão, ao longo deste dia e dos próximos meses, vai me olhar diversas vezes provocador ou debochado –, seja me cobrando um capítulo novo de um novo livro meu, seja exigindo mais dez páginas de tradução do livro de um outro, que passa a ser um pouco meu enquanto o traduzo.

Os horários dedicados a cada tarefa se emendam sem brecha entre si: pela manhã faço a coluna, que é diária, assim que termino pego a tradução até às 22h e, se tiver uma ideia que me move muito tarde de noite, é a vez do meu livro. Às vezes acontecem esses períodos, provisoriamente, quando mais nada cabe na equação. Ir ao sebo é uma piada interna rápida.

Por isso, aproveito bem. Por mais breve que vá ser a visita, entro na loja como quem vai receber um Oscar. A conversa do livreiro me dá combustível pra jornada na máquina. Esse combustível não me chega mais pelos cabos, updates remotos das vidas dos amigos via chat. Muitos deles mais amigos meus do que o meu amigo livreiro, é verdade. Mas tempo demais “conectada” desde 1997 me trouxe recentemente a um ponto de saturação, eu me tornei uma infiel – na fachada, seguidora; por dentro, relutante. Para mim entre o online e o ao vivo não existe mais disputa.

Encontrar o homem no sebo é o meu item de consumo orgânico essencial da semana.

Senão a coisa não anda, aprendi a duras tecladas.

Sem uma ração regular de presencial, eu travo. A máquina continua e eu travo. A máquina não é apenas o ente eletrônico que ligamos à tomada. A máquina é tudo que dela dePPPPendePrazos, Produção, Propaganda, Passar a mercadoria adiante – e de que dependo eu mesma para continuar.

– Leva este.

O livreiro brota como um gigante do meio da desordem de títulos empilhados que toma o canto da loja onde foram depositados, aguardando limpeza, centenas de aquisições recém-chegadas.

– Vêm de casa de viúva, de órfão, de jornalista que recebe 500 lançamentos toda semana pra resenhar (tem quem resenhe sem ler…), de quem precisa liberar espaço pra alimentar o vício comprando outros.

Compro “este” por R$ 12, novo mas cheira a velho, não espero outra coisa. Faz parte do gosto por comprar em sebos.

O autor “deste” morreu há seis anos, aos 84, tendo sobrevivido a um bombardeio em Dresden e sido capturado pelos alemães na II Guerra Mundial. O epitáfio que pediu, ainda em vida, um exemplo de como a enxergava: “Everything was beautiful and nothing hurt”. Soube abordar catástrofes e injustiças sem inflamar o discurso. Sua prosa às vezes lembra uma cantiga de roda sobre o fim do mundo, com repetições de palavras e frases características como um carrossel, repetições como refrões cujo propósito sutil é embalar o leitor na história.

O que me lembra uma frase do Carlos Heitor Cony, que ele soltou em palestra na Academia Brasileira de Letras há exatos dez anos, e guardei num desses cadernos que insisto em ter na bolsa:

“O jornalista é um peixe de aquário. Tem que ser bonitinho e ficar ali naquele mundozinho, tem que fazer pirueta, tem que fazer gracinha. Se ele não for bonitinho, ele perde o emprego. O escritor é um peixe de fundo, habita o território do mar onde não chega a luz, o sol. Em geral ele é feio. Mas ele tem o oceano todo pra ele.”

Consigo espaço o bastante para segurar o livro à minha frente no rush do metrô carioca e ao mesmo tempo me agarrar a um dance pole do vagão. ”Pastelão ou solitário nunca mais” (“Slapstick or lonesome no more“) é de 1976. Tem a idade do amigo livreiro. O romance esquisito de Kurt Vonnegut nada em cultura pop mas vem do fundo do mar. Coincidência, abre falando sobre como os fps podem tornar um destino leve ou pesado.

“A base do humor do Gordo e o Magro, creio eu, era que eles se esforçavam ao máximo em cada prova que tinham pela frente. Nunca deixavam de enfrentar de boa fé o seu destino, e eram fantasticamente adoráveis e engraçados na tentativa. (…) O que realmente parece importante? Lutar de boa fé com o destino.”

Como Vonnegut, J.D. Salinger também falou sobre Laurel & Hardy, definindo-os como “seres e artistas enviados do Paraíso”. Como Miller, Salinger também ama e dá valor ao riso. Fez Seymour Glass escrever ao seu irmão, Buddy, em “Seymour: Uma apresentação”: “Faça as pazes com seu senso de humor.”

Indiscutível.

poem #5

I had a black and white satin dress
On, It made my maiden years seem mere playful
Song.

In it I sat and played with my supermodern cellphone on my lap
It has lights which sparkle and such
When Voices reach out to me through its wireless throat

Me and you – worlds apart
Like me and the cellphone

I too sparkle (the black and white satin dress, and a little jewelry hanging from my neck)

But I sit still – wait

Like I was made up by a 19th century girl who
Thought she could create characters out of her loneliness and very limited society.

When I let out a sigh
I notice I am wearing a cleavege that could easily be Victorian
And that my heart is as old as my fashions

That this cellphone of mine is as useless tonight than it would be on any 19th century night or day

And that gentlemen of your likeness, you have travelled trough time.PQAAAPfWi9FstPUBu-mrKMFvvcJB1i0_t6OFuesvBPvrsnJ0xl97V1rE18pV66XB3Jp_PUhFs_edDHxnK01EcCucyGMAm1T1UMTR2CDLlHaLH6ir8FD6U1JfXZ1B